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Vasco Callixto

Um agradável convívio natalício do VW ArClube de Portugal levou-me mais uma vez ao histórico Grande Hotel do Porto, após umas duas décadas de ausência. Fui encontrar o mesmo charme, o mesmo fascinante passado trazido ao presente e apontado ao futuro, assim se continuando a desdobrar às novas gerações umas certas páginas do tempo dos nossos avós. E se neste hotel se evocam as mais diversas personalidades, é, porém, a Família Imperial brasileira que a todas sobreleva. Já há vinte anos recordei o facto na imprensa diária e “arquivei-o” num dos meus livros. Com prazer o registo de novo.

Quando em 1889 foi implantada a República no Brasil, os Imperadores D. Pedro II e D. Teresa Cristina e seus familiares exilaram-se em Portugal e optaram pela cidade do Porto. Mas foi muito curto o exílio da ex-Imperatriz. Com efeito, D. Teresa Cristina, tendo chegado bastante debilitada, veio a falecer ao fim de quatro dias, em 28 de Dezembro de 1889, no Grande Hotel do Porto, onde os imperiais exilados estavam hospedados. Por isso, muito justamente, o hotel presta hoje homenagem aos ilustres hóspedes de há 126 anos. Recorde-se que o Porto conserva na Igreja da Lapa o coração do pai do Imperador deposto, D. Pedro I do Brasil e IV de Portugal.

O Grande Hotel do Porto data de 1880. Ficou a dever-se ao comerciante Daniel de Moura Guimarães, que voltara rico do Brasil e quis dotar a sua cidade com uma unidade hoteleira de excepção. Não tardaram as figuras mais marcantes da época a frequentar o hotel da Rua de Santa Catarina, seguindo-lhes o exemplo os ex-Imperadores do Brasil, que, com a sua comitiva, ocuparam todo o primeiro andar do edifício. Após o falecimento do fundador, sucederam-se outras gerências, o hotel sofreu frequentes e necessárias remodelações e em 1942 passou a ser propriedade de António Maria Lopes, cujos descendentes administram actualmente este incomparável Grande Hotel do Porto.

A imperatriz D. Teresa Cristina sofria de lesões cardíacas. Faleceu no quarto nº 16; tinha 67 anos de idade. Por coincidência, no mesmo dia do falecimento, em Lisboa, D. Carlos era aclamado Rei de Portugal. O falecimento da Imperatriz foi participado a todas as Cortes da Europa e ao governo brasileiro e foram chamados por telégrafo a Princesa Isabel, filha da falecida, e seu marido, Luís Filipe, Conde de Eu, comparecendo no Porto o Infante D. Afonso, irmão do Rei D. Carlos. Exposto o corpo da Imperatriz na já citada Igreja da Lapa, foi transportado de comboio para Lisboa, e depositada a urna no Panteão de S. Vicente.

O Imperador D. Pedro II partiu para Paris poucos dias depois no Sud-Express, tendo enviado telegramas de agradecimento por todas as atenções recebidas em Portugal em tão doloroso transe. Falecido dois anos mais tarde em França, também os seus restos mortais vieram para Lisboa, juntando-se aos de sua esposa no Panteão de S. Vicente. E em 1920, os corpos do Imperador e da Imperatriz foram trasladados para o Brasil, jazendo na Catedral de Petrópolis, num duplo túmulo monumental.

A evocação da presença dos Imperadores do Brasil no Grande Hotel do Porto apresenta-se numa das paredes da elegante sala de jantar, com um bom retrato do imperador D. Pedro II ao centro, ladeado por outro retrato da imperatriz D. Teresa Cristina e por retratos de outros familiares. Muito me congratulo por, directa ou indirectamente, ter contribuído para esta homenagem ser um facto, pois assim o sugeri há duas décadas, quando hotel estava em falta com os seus mais ilustres hóspedes.

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