Alegria e tristeza no Natal dos emigrantes

Alegria e tristeza no Natal dos emigrantes

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Para milhares de portugueses, o Natal é quando o avião aterra.

Uns regressam para estar com a família, outros recebem os familiares nos países onde trabalham, outros sofrem a distância em silêncio e só a solidariedade minimiza os estragos de um Natal em tempo de vacas magras. Ainda assim, os emigrantes portugueses mantêm as tradições que levaram um dia na bagagem.

O cenário repete-se todos os anos. Milhares de emigrantes regressam nesta época a Portugal para passarem o Natal com a família.

Na fronteira de Vilar Formoso é visível um aumento (ligeiro) do tráfego mas o trânsito já não flui como dantes. As viagens de avião estão mais baratas. Bem mais baratas do as portagens na A23 e na A25.

Mas há um cenário ainda mais triste. Foram tantos os portugueses a emigrar nos últimos anos, e em certos casos tantos da mesma família, que há situações onde é a família que vive em Portugal a viajar até ao estrangeiro – uma vez que são menos os elementos que ficaram do que aqueles que partiram.

É o que acontece com Marisa e César Ferreira, casados há quase dois anos. Ela açoriana e oriunda de uma família dispersa um pouco por todo o mundo; ele natural do norte do País e a braços pela primeira vez com a emigração.

O Natal nunca tinha sido passado longe de Portugal. Mas agora estão há menos de um ano nos Estados Unidos da América e as poupanças não permitiram a viagem de regresso.

Mesmo assim, a ceia natalícia será em família. Os pais da açoriana vão até à América e levam consigo tudo o que a tradição manda. “Bacalhau, comidas e doces portugueses… não vai faltar nada. Nem a família”, conta Marisa.

Já o caso de Sofia Figueiredo é bem diferente. Emigrada em Londres desde o último Verão, a jovem visiense volta agora pela primeira vez a Portugal para passar o Natal. “Quero estar com a minha família que já não vejo há quatro meses. Comer o bacalhau e molhar a broa no azeite”, sorri Sofia.

Para milhares de portugueses, o Natal é quando o avião aterra. Estima-se que entre 100 mil e 120 mil compatriotas nossos tenham saído do País este ano. O Natal traz muitos deles de volta para matar saudades da família e os aeroportos são, por estes dias, lugares privilegiados de reencontro.

São todo os dias centenas de abraços emocionados, sorrisos disfarçados entre lágrimas. Em breve o cenário irá repetir-se, mas com a dor de quem vê partir os que lhes são queridos. Serão as lágrimas escondidas para que quem parta não leve ainda mais sofrimento na bagagem.

A quadra festiva serve para apaziguar uma saudade que, para muitos, parece eterna.

Internet diminui distância

Com a emigração em alta, muitas famílias passam as festas espalhadas pelo mundo. Dá-se graças à internet que permite vídeo-chamadas e ajuda a “minorar a saudade”. Já não é o primeiro Natal de Ana Raquel longe da família. Está há três anos no Brasil.

No entanto, a mãe ainda chora ao vê-la no ecrã do computador.

A arquitecta, de 35 anos, não passará a consoada sozinha. Está com o marido, mas nada é igual. “Encontrei um supermercado com algumas coisas portuguesas e já cozinhei pratos típicos. Para o Natal vou fazer bacalhau com natas”, revela a O DIABO.

De Portugal, ninguém sabe quantos partem a cada mês – há muito que foi abolido o passaporte do emigrante e, com a abertura das fronteiras, já nem o Instituto Nacional de Estatística se atreve a fazer estimativas. Nota-se que são muitos e de muitas idades, como quase sempre acontece quando uma economia se retrai.

João prepara-se para passar o último Natal antes de emigrar. É a segunda vez que parte para o estrangeiro logo a seguir à quadra festiva. Depois de uma experiência em Espanha, o jovem natural do distrito de Aveiro partirá em Janeiro para Londres.

Os telemóveis com acesso à internet ajudam a manter um contacto quase diário com família e amigos. “Mas não é a mesma coisa”, assegura. Serve de consolo a Consoada recheada dos sabores tão portugueses. Um recarregar de baterias para uma aventura que se adivinha dura.

Emigrantes à rasca

Mas emigrar não significa enriquecer. Muitos portugueses passam as passas do Algarve no estrangeiro. Em Paris, a Santa Casa reuniu cerca de três mil toneladas de alimentos para ajudar cerca de 160 famílias de compatriotas em dificuldades.

Aqueles que recorrem ao apoio da instituição são tanto residentes de longa data a quem “a sorte não sorriu”, como “pessoas que acabam de chegar a França”, contou à agência Lusa Abílio Lopes, vice-provedor da Santa Casa da Misericórdia de Paris, durante a operação de triagem dos bens.

“Nos últimos três anos, ou mais, tem havido um aumento de pedidos de pessoas que precisam de ajuda. A maior parte são portugueses que acabaram de chegar”, acrescentou o responsável.

A mesma constatação é feita por José Afonso, presidente da Associação Franco-Portuguesa de Puteaux, nos arredores de Paris, onde foram armazenadas as caixas com os bens alimentares reunidos por mais de uma dezena de associações portuguesas.

“Encontramos muita gente que vem à procura de trabalho e alojamento. Temos ajudado muitos, mas não conseguimos ajudá-los a todos. Por isso, a Santa Casa da Misericórdia está a fazer um grande trabalho e não podíamos deixar de colaborar com a instituição, que é o último refúgio que os portugueses têm agora aqui em França”, declarou José Afonso.

A Associação Franco-Portuguesa de Puteaux nasceu há quase dez anos e tem acompanhado a chegada de uma nova vaga de emigrantes, havendo muitos que “precisam de ajuda mas não se mostram”, acrescentou José Afonso, apelando a quem conhecer casos de portugueses em dificuldades para contactarem a Misericórdia de Paris.

O problema é que existe “uma pobreza envergonhada”, continuou Abílio Lopes, explicando que “o português prefere viver no seu cantinho sem dar a conhecer as suas dificuldades do que mostrar-se e assumir que, realmente, tem necessidade de apoio”.

O outro vice-provedor da Santa Casa, José Barros, alerta os portugueses que estejam a pensar emigrar para os problemas que vão encontrar.

“As dificuldades aqui são também muito grandes para encontrar trabalho e para encontrar casa. Se vierem sem o endereço de um familiar ou amigo que os possa acolher – pelo menos nos primeiros tempos – é um risco sair de uma situação de dificuldade para outra que vão encontrar aqui também”.

Cavaco pede valores

O Natal, a emigração e a crise em que Portugal está mergulhado fizeram com que o Presidente da República pedisse aos portugueses que vão mais longe na celebração do Natal e tornem permanentes valores como a concórdia e a solidariedade, dando especial atenção “aos mais frágeis e vulneráveis”.

Na tradicional mensagem de Boas Festas do Presidente da República, Cavaco Silva, e da mulher, Maria Cavaco Silva, o chefe de Estado sublinha que “o Natal é um tempo que convoca a união das famílias e amigos”.

“Queremos que a paz esteja com os homens não só agora. Queremos que o esforço de concórdia entre os Povos seja permanente. Queremos que a solidariedade e a partilha sejam mais fortes nesta época do ano, mas que permaneçam activas ao longo do tempo”, pede Cavaco Silva.

Na mensagem, gravada na Sala das Bicas, no Palácio de Belém, e disponibilizada no site da Presidência da República, o Presidente apela a que estes valores durem o ano inteiro:

“Queremos pensar nos mais frágeis e vulneráveis: as crianças, os desempregados, os mais velhos. Mas devemos fazê-lo também o ano inteiro”, refere.

Maria Cavaco Silva chama a atenção para aqueles que estão afastados dos que mais amam e para os que trabalham na época do Natal, “tantos voluntariamente, para dar conforto e calor humano aos que dele precisam”, manifestando a todos eles “apreço e gratidão”.

O Presidente da República deixa ainda uma palavra para os emigrantes portugueses, que “por muito longe que estejam, têm sempre os seus e o seu País no coração”.

“A todos queremos deixar uma palavra amiga, de coragem e de esperança, confiantes de que saberão vencer as dificuldades. Desejamos a todos os Portugueses um Feliz Natal e um Ano de 2015 com saúde e mais prosperidade”, termina Cavaco Silva, na mensagem gravada junto à árvore de Natal do Palácio de Belém.

Prendas não faltarão

Solidários sim, e com muitas prendas debaixo da árvore de Natal. Em Portugal gasta-se mais em presentes do que em Espanha, na Grécia e na Rússia — no último Natal, cada português gastou, em média, 290 euros. A Irlanda, por seu turno, foi o país mais generoso na época festiva, com cada irlandês a tirar da carteira 1200 dólares (960 euros).Os números vêm na edição de Dezembro do Global Economy Watch, da consultora PricewaterhouseCoopers (PwC), que avaliou o consumo nos últimos dois meses do ano passado.

A época natalícia é uma altura decisiva tanto para lojistas como para fornecedores, uma vez que as vendas em Novembro e Dezembro, quando comparadas com o resto do ano, têm um impacto desproporcional nos negócios. Só em 2013, por exemplo, os gastos totais nas principais economias ocidentais (à excepção do Japão) foram de 445 mil milhões de dólares (360 mil milhões de euros).

Entre nós, cada português despende, em média, 357 dólares (290 euros), mais do que os gregos (151 euros) e os espanhóis (148 euros). Mas há cicatrizes da crise financeira que ainda não sararam. Os gastos por pessoa em Portugal e em Espanha permanecem baixos desde 2007, o que poderá ser, aponta o estudo, o resultado das políticas de austeridade impostas durante o abalo financeiro e que incluíram, entre outras medidas, o corte de salários. O caso da Grécia é mais severo: a despesa por pessoa no Natal diminuiu 60% desde 2007.

Na zona Euro, a França (461 euros) é a nação com mais despesa por pessoa registada, seguida da Alemanha (417 euros) e da Itália (371 euros). O Reino Unido e a Alemanha, cujos valores são menos díspares do que aqueles franceses, considerando o período de 2007 a 2013, são as grandes economias ocidentais onde o consumo natalício já recuperou da crise.

Um último destaque vai para os dois maiores mercados emergentes onde o Natal é celebrado. No Brasil e na Rússia as pessoas ainda tendem a consumir relativamente pouco ‘per capita’. No entanto, quando se analisa a despesa total ao longo do período festivo, ambos os países estão no top 10 porque as suas fronteiras albergam um grande número de consumidores.