soares martinez - CARA copy Pedro Soares Martinez

Neste começo de ano, sob a influência balsâmica da quadra natalícia, atento ao significado profundo do ainda próximo Dia dos Reis Magos, lembrei-me muito dos meus irmãos muçulmanos e dos seus sofrimentos, que sempre tenho procurado acompanhar, esforçando-me por entendê-los e por respeitá-los, no pressuposto de que a fraternidade impõe toda a compreensão, que, geralmente, tem faltado aos ditos ocidentais, quando contemplam o Mundo Islâmico no propósito de o moldarem à luz das suas concepções, sem quererem aceitá-lo tal como ele é, nas suas tradições, nas suas particularidades, na sua feição própria de viver, de estar e de sentir.

Sou convencionalmente ocidental. E cristão – católico, apostólico, romano –, sem quebra de maior em relação ao compromisso baptismal que pudesse macular-me irremediavelmente o espírito. Mas, para além da potencialidade original dos cristãos para entenderem e respeitarem o Islão, estou integrado, há muitas gerações, em comunidades às quais a História não permitiu desconhecer os islamitas, nem deixar de respeitá-los.

Através de uma convivência de setecentos anos, da qual alguns só registaram os golpes de montante, esquecendo os períodos de paz, as alianças de cristãos com islamitas, a fusão de culturas, o relevo da mensagem cristã na lei corânica, o papel dos moçárabes nos califados peninsulares, o relevo das minorias mouriscas nas cidades cristãs da Reconquista e a influência de Aristóteles tanto na filosofia escolástica como no pensamento de Averrois, aquelas comunidades, nas quais se formou o meu sangue e o meu entendimento, receberam dos islamitas extensíssimas contribuições culturais, a par de muitas inovações técnicas de relevo.

Há quem se refira à coexistência de uma cultura cristã e de uma cultura islâmica nos quadros dos Estados peninsulares. Preferirei referir que na cultura peninsular se integraram tanto elementos cristãos como elementos islâmicos. Em extensão e em profundidade. Por isso se me afigura que os ocidentais do extremo poente da Europa não apenas fomos dotados de especial capacidade para entender o Islão. Temos o dever de entendê-lo. E esse dever foi cumprido, enquanto os povos peninsulares mantiveram plena consciência da sua própria individualidade.

Tal consciência, porém, anda, na actualidade, esmaecida, do que poderá resultar uma total incompreensão das sociedades islâmicas e afrontosas injustiças na sua apreciação. Era isso mesmo que queria transmitir aos meus irmãos islamitas. Proponho-me, realmente, dizer-lhes somente que, entre os portugueses e, naturalmente, entre outros peninsulares, todos quantos não renegaram as suas origens, nem a sua índole, continuam, como aqueles que os precederam, no tempo e no amor destas nossas terras, a sentir as dores do Islão, os seus dramas e as suas tragédias, que bem desejaríamos aprender a minorar.

Tal é a razão desta mensagem, que, aliás, se situa, sem qualquer mudança radical de posições, na linha de continuidade do que já sustentei, em 1970, quando, ao proferir a minha primeira comunicação à Academia das Ciências de Lisboa, escolhi por tema o pensamento islâmico.

A síntese de uma harmonia – Mazagão

Tratarei de pôr em relevo, sobretudo, a vocação dos portugueses para um pleno entendimento dos islamitas, mas sem esquecer que essa mesma vocação se situa na linha geral peninsular, bem expressa, exemplifictivamente, no qualificativo de “Cid”, senhor por antonomásia, reservado, como marca paradigmática das virtudes dos cavaleiros cristãos, ao célebre guerreiro das montanhas de Burgos.

Em Rodrigo Díaz de Vivar, modelo de lealdade para o seu rei, mas também para os mouros com quem batalhou e com quem igualmente estabeleceu alianças, se nos depara, em termos de grandeza exemplar, a cabal demonstração de que, na guerra como na paz, é possível, e desejável, o respeito mútuo entre cristãos e islamitas.

Muitos cavaleiros portugueses da Reconquista, embora de menor nomeada, mereceriam ser citados a par do celebrado Campeador. E todas as lendas de “mouras encantadas” e de laços de paixão a ligarem islamitas e cristãos, muitas vezes santificados pelo matrimónio, lendas essas amorosamente conservadas nas aldeias portuguesas, evocam, num ambiente de poesia, épocas de compreensão que o fragor das armas de modo algum apagou.

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