NUNO ALVES CAETANO

Desde que a actual coligação PSD/CDS chegou ao poder que assistimos ao habitual histerismo patético da esquerda que fica desesperada quando perde o poder, tendo como protagonistas quase sempre os mesmos personagens que muito ‘democraticamente’ se recusam a aceitar a ideia dos outros, sobretudo se enquadrados na chamada “direita”.

Contudo desta feita atingiu contornos absolutamente condenáveis e perigosos, apoiando-se e defendendo fenómenos novos surgidos um pouco por toda a Europa do Sul, nomeadamente em Espanha e Grécia.

Novas forças políticas surgiram, vindas obviamente da esquerda e extrema-esquerda, sempre bem organizadas e atentas, baseando a sua linguagem na mais estrondosa demagogia já vista até hoje, ultrapassando o razoável.

Em Espanha através do “Podemos”, cujo líder no primeiro confronto a sério demonstrou ser um completo ignorante sobre qualquer matéria económica, insistindo apenas nas manchetes demagógicas, certamente bem estudadas por uma competente equipa de ‘marketing’ político, dizendo aquilo que qualquer pessoa – sobretudo se for menos instruída – quer ouvir, denotando assim a completa incapacidade para governar, depois na Grécia com o Syriza, organização política baseada no mesmo estilo, nas mesmas bases, mas com líderes um pouco mais capazes no capítulo económico, dando um pouco mais de credibilidade a uma população ávida de “música nova” para os ouvidos, neste caso traduzindo-se pelo fim da austeridade.

Ambos os casos tornaram-se um sucesso de popularidade, aliás compreensível – quem não gosta de escutar promessas de bem-estar e melhoria das condições de vida? – com resultados eleitorais reais, sobretudo na Grécia onde alcançaram o poder, sem esquecer no entanto que em Espanha, por exemplo, conquistaram a Câmara de Madrid.

Desde logo em Portugal exaltaram os esquerdistas, desde o Bloco (partido na mesma linha política), até aos comunistas (sempre alinhados contra a direita), com excepção do PS que virou o bico ao prego, face à derrota socialista. Para Costa, que aplaudira entusiasticamente o Syriza, foi conveniente ficar um pouco à margem, coerente com a sua forma de estar e com a filosofia do Partido Socialista.

Que bloquistas e comunistas aplaudam os “Syrizas” deste mundo é natural e não espanta ninguém, agora determinadas pessoas, com credibilidade profissional, algumas até com idoneidade moral inquestionável, virem defender que uma vez que “os gregos votaram no Syriza cujo programa previa acabar com a austeridade e consequentemente ‘bater o pé’ à Europa…”, o Governo grego só tem que cumprir o prometido, é de bradar aos céus!

Então os compromissos de Estado são para ignorar? Que raio de exemplo é esse? E se as pessoas se recusarem a pagar impostos? Estão no seu direito. Será que o Estado não vai agir? Então numa Comunidade Europeia, uns são filhos e outros enteados? Um país contrai empréstimos e depois diz que não paga ou que pagará quando puder?

O que diriam esses políticos e comentadores se aparecesse um partido português a defender, por exemplo, que a Europa deveria entregar doze mil euros anuais a cada individuo activo, ou que a cada cinco anos a Europa deveria subsidiar a troca do automóvel? Será que se esse partido ganhasse as eleições mantinham a mesma lógica política, ou seja, defendiam publicamente que a Europa tinha que assumir esse encargo?

Admito que se seja contra a forma como o Governo conduziu e implementou o Acordo assinado pelo PS com a Troika, o célebre “Memorandum” – eu próprio estou contra muitas dessas medidas –, agora que a cegueira demagógica seja tal que leve a afirmações públicas desta natureza é inadmissível pelo perigo que representam. O bom senso tem que imperar em quem tem responsabilidades políticas e é convidado a expor publicamente as suas ideias. Para além de tudo o mais considero uma afronta e uma falta de respeito pelos portugueses que tantos sacrifícios têm feito de modo a que o Estado possa cumprir com os compromissos que assumiu (e onde o PS tem a maior quota de responsabilidade), à revelia dos contribuintes, que levou o país à bancarrota.

Quando a lucidez é ultrapassada pela cegueira e pela demagogia, o resultado certamente que será negativo e nada benéfico para ninguém.

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