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EVA CABRAL

A década de sessenta portuguesa está longe do cinzentismo que os opositores ao regime a gostam de pintar, e está recheada de pormenores deliciosos bem à altura do génio de um povo com nove séculos de história. A propósito diga-se que António de Oliveira Salazar tinha em privado um refinado sentido de humor, e não resistia sequer a um bom anúncio.

Verdadeiramente visionário para a época em que viveu José Carranca Redondo lançou nas estradas de Portugal o seguinte slogan: “Licor Beirão – O Beirão de quem se gosta” .

A frase publicitária referia-se, ainda que veladamente, a António de Oliveira Salazar. Sabe-se que este já conhecia o anúncio mesmo antes de ser lançado, mas limitou-se a sorrir perante a audácia do jovem empresário. Ou seja, deu-lhe o seu apoio mesmo quando o empresário se travava de razões com os então poderosos responsáveis da Junta Autónoma das Estradas de Portugal, pelos vistos bastante mais sisudos do que o homem forte do regime.

E, apesar de aparentemente ninguém hoje o confirmar, parece que Salazar voltou mesmo a sorrir quando a marca aproveitou o início da guerra colonial para novo slogan: “Angola é nossa, e o Licor Beirão também”.

Para os portugueses mais distraídos diga-se que o Licor Beirão é um licor típico de Portugal, em particular da região da Beira. A sua produção teve início no século XIX, na vila da Lousã, com base em diversas plantas – entre as quais o eucalipto, a canela, o alecrim e a alfazema – e sementes aromáticas, submetidas a um processo de dupla destilação. O produto assim obtido apresenta uma tonalidade de topázio transparente, de sabor doce.
É normalmente consumido como digestivo, simples ou com gelo.

Diz a história de uma das mais carismáticas marcas portuguesas que o licor, ainda sem o apelido que a caracterizaria, nasceu na vila da Lousã no século XIX. De acordo com a tradição, um caixeiro-viajante do Porto, de passagem pela vila para a venda de vinho do Porto, apaixonou-se pela filha de um farmacêutico local, e com ela se casou, ali se estabelecendo. A farmácia de seu sogro vendia, além dos remédios habituais, licores
preparados com ingredientes naturais, segundo receitas ancestrais e secretas.

  • Leia este artigo na íntegra na edição impressa desta semana.

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    …E quem é que não do Licor Beirão? É delicioso.