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Portugal está na moda. Somos o pobre país que é, no entanto, pacífico e que bem sabe acolher. O Estado sobrevive graças ao Turismo, mas como todas as modas, também esta um dia irá passar.

A economia portuguesa está há mais de oito anos dependente de dois motores: as exportações e o Turismo. Se da primeira há todos os meses números que ora dizem que estamos bem, ora vaticinam um qualquer desastre prestes a acontecer, do segundo pouco se sabe e quais as consequências da variação dos números.

Estará o leitor acostumado a ouvir que os números do Turismo não param de crescer e que Portugal segue no bom caminho. O Algarve já é “Allgarve” e a “Margem Sul” do rio Tejo também se quer vergar aos caprichos ingleses – que chegam aos milhares todos os dias.

Aliás, além de recordes históricos em termos de número de turistas britânicos, Portugal vai este ano bater também máximos de receitas do turismo oriundo do Reino Unido, ultrapassando pela primeira vez a Grécia. Até Agosto, aumentou 7,1% o número de hóspedes britânicos, 7,7% o número de dormidas e 11,8% o valor das despesas feitas por turistas do Reino Unido, sempre relativamente ao período homólogo.

Não é, por isso, de admirar que o presidente do Turismo de Portugal tenha saudado inconsequentemente este crescimento de receitas, que é muito superior ao aumento de visitantes e vai permitir ultrapassar a Grécia em termos de valor de receitas do turismo britânico. “Eles também cresceram, mas à custa da descida de preços”, referiu. O mercado do Reino Unido é, há muitos anos, um dos principais emissores de turistas estrangeiros para Portugal, mas os fluxos sempre se concentraram no Algarve e na Madeira. Porém, no último ano, isto mudou e começa a assistir-se, segundo João Coutinho de Figueiredo, a “um fenómeno de redescoberta de Portugal por parte do público britânico”. A lista de regiões que mais estão a crescer são os Açores, Alentejo, Centro e Norte, fruto de uma maior abertura dos britânicos à diversificação da oferta para além do habitual sol e praia. O presidente do Turismo de Portugal considera estar a assistir-se a uma “mudança estrutural” que levará ao fim das férias em pacote marcadas junto de um operador turístico, passando os turistas a procurarem outras actividades, como a natureza ou o desporto.

Mas, se na Grécia baixaram os preços, em Portugal subiram-se os preços para que os turistas gastem mais dinheiro. Pobre dos “mexilhões” a quem o ditado não dá descanso. Os portugueses lá se têm de apertar com ordenados de miséria para pagar preços de turistas.

Portugal está em moda, mas, como todas as modas, um dia isso irá acabar. Estamos, uma vez mais, a pensar no presente, rentabilizar o presente, sem uma estratégia de futuro.

Jovens vêm à descoberta

Portugal não é mais o paraíso para reformados. É mais do que isso, é o País é visto como o lugar barato do sul da Europa a que todos recorrem para beber umas cervejas baratas e apanhar um banho de sol.

Apesar do crescimento do número de turistas britânicos um pouco por todo o território nacional, é de frisar os números do Hostelworld – o maior site de reservas ‘online’ de ‘hostels’ para jovens. Segundo a empresa irlandesa, alemães, norte-americanos e australianos são quem mais visita Portugal, pelo segundo ano consecutivo.

Os dados agora divulgados mostram ainda que, em comparação com 2014, houve este ano um novo crescimento no número de reservas de ‘hostels’ feitas pelos alemães (+34%), americanos (+35%) e australianos (+15%).

Ainda assim, o maior crescimento percentual de reservas vem da Argentina (+55%) e da Índia (+43%).

Em termos absolutos, o quarto posto desta tabela de nacionalidades é ocupado por uns canadianos que subiram dois lugares desde o ano passado, ultrapassaram franceses e brasileiros – quintos e sextos classificados, respectivamente.

Neste ‘top 10’ de nacionalidades que mais reservam alojamento ‘low cost’ em Portugal figuram ainda países como o Inglaterra (7.º), Coreia do Sul (8.º), Itália (9.º) e Espanha (10.º).

Para a empresa de reservas de alojamento barato, “Portugal assume-se cada vez mais como um destino de eleição para jovens mochileiros”. Prova disso, diz o Hostelworld, é que, “com a excepção do Japão, que registou uma variação negativa de 19%, da Espanha (-6%) e da Suécia (-6%), todos os restantes países registam um crescimento médio de 15% na procura de hostels” no nosso país.

Investimentos só para turistas

Não são os jovens que tem poder de compra, mas continuamos a trabalhar só a olhar para o Turismo imediato. Diz a História que assim se desvirtuam culturas, histórias e povos. Que se afastam civilizações, que se destrói património. Mas a crise económica que nos impõe assim parece ditar.

Avançamos com políticas que em vez de trazerem portugueses de volta à sua Terra, trazem nómadas que povoam temporariamente centros históricos das cidades portuguesas.

Desde que, a 27 de Novembro do ano passado, entrou em vigor a nova lei do alojamento local, registaram-se em média 63 unidades por dia, a maioria apartamentos destinados a receber turistas nacionais e estrangeiros.

Segundo os dados mais recentes da Secretaria de Estado do Turismo, os registos feitos no Balcão Único Electrónico somaram, até 5 de Outubro, 19.841 alojamentos locais. 50% são unidades que já existiam antes da entrada em vigor das novas regras, que facilitam o registo, sem necessidade de licenciamento ou pagamento de taxa.

Quase 60% são apartamentos, 28,8% moradias e 6,5% “estabelecimento de hospedagem”, as três modalidades definidas na lei para este tipo de alojamento, baseado em serviços prestados por particulares e que se assume já como uma alternativa à hotelaria mais tradicional.

O ‘boom’ no Turismo em Portugal ajudou a impulsionar o negócio, sobretudo nas regiões que já concentram grande número de visitantes. Mais de metade dos registos foi feita em Faro (54%), onde já há dez mil unidades legalizadas. Perto de 21% são em Lisboa e 7,2% no Porto. “Estes três distritos representam 82% dos registos totais”, indica a Secretaria de Estado do Turismo.

Este é, porém, o resultado do que O DIABO andava a avisar desde 14 de Junho de 2011 quando publicou em capa que “temos mais de 1,5 casas a mais”. Adiantava o nosso jornal que o País “podia erradicar os desalojados”, mas que não queria. O porquê está agora à vista, para poder taxar negócios que surgem em tempos de crise. Mas que desaparecem em tempos de maior tranquilidade.

Enquanto trazemos para o coração das nossas cidades turistas sedentos de álcool, festa e muita boémia, os nossos jovens estão a ser empurrados para o campo… ou para a emigração.

A quem estamos nós a entregar as nossas cidades?

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