HUGO NAVARRO

Abandonada pelos seguidores de ontem e refém da brigada radical de Lula da Silva, a ainda Presidente do Brasil, Dilma Rousseff, transformou o palácio Alvorada no último reduto de uma resistência desesperada. Enquanto o Brasil mergulha na crise, Dilma ainda despede cozinheiros porque falharam o ponto ideal de cozedura dos ovos. Senhor do palácio, Lula saboreia camarões à beira da piscina. Retrato de um fim de festa nos salões da residência presidencial em Brasília.

Dilma Rousseff regressou ontem, segunda-feira, ao palácio presidencial Alvorada, nos arredores de Brasília, depois de um fim-de-semana passado com a família em Porto Alegre, a cidade gaúcha que ela adoptou como sua e onde vivem a filha e os dois netos.

No regresso ao palácio Alvorada, a ainda Presidente da República Federativa do Brasil não tinha, como no passado sempre teve, uma pequena multidão de fãs à sua espera, para a saudarem de longe com lencinhos brancos. Uma vez iniciado o processo de ‘impeachment’, os “amigos” de véspera desapareceram, como que por encanto; e o telemóvel de Dilma, que outrora não parava de tocar, chega agora a estar uma tarde inteira sem receber uma chamada.

Pouco importa: Dilma Rousseff decidiu transferir para o palácio Alvorada, residência oficial dos Presidentes brasileiros desenhada por Oscar Niemeyer, o “núcleo duro” com o qual tenciona ainda resistir ao processo legal que ameaça destituí-la definitivamente do cargo.

Os frequentadores dos salões do palácio Alvorada são agora, em exclusivo, dirigentes do PT criteriosamente escolhidos, ligados por cumplicidades várias a Dilma e ao seu protector de sempre, o ex-Presidente Inácio Lula da Silva.

O “nécleo duro” resolveu cerrar fileiras logo no longo dia em que a Câmara dos Deputados desfilou num imenso “sim” ao processo de ‘impeachment’. Dilma, Lula e seus assessores mais próximos acompanharam a votação no palácio Alvorada. Mas enquanto a Presidente ficou grudada ao televisor, como se ainda não acreditasse no que via, Dula desceu ao vasto pátio e passou o resto do dia saboreando camarões à beira da piscina, na companhia dos ainda ministros Jaques Wagner, Ricardo Berzoini e Armando Monteiro.

Não falta em Brasília quem pense que o processo contra Dilma não passou de uma forma de chegar mais facilmente a Lula da Silva, um dos mais fortes suspeitos no mega-processo de corrupção “Lava Jato”. Seja como for, Dilma já não pode prescindir do ex-Presidente e da ‘entourage’ do PT que constitui hoje a única legião de indefectíveis com que pode contar.

A imprensa brasileira já chamou “bunker” ao palácio Alvorada, numa alusão ao espírito de “último reduto” dos actuais frequentadores, ainda empenhados em contrariar o processo de ‘impeachment’. Certos à hora do café são os ex-ministros Tereza Campelo (Desenvolvimento Social), Carlos Gabas (Previdência), Aloízio Mercadante (Educação) e Nelson Barbosa (Finanças). Jaques Wagner é o elemento de ligação permanente a Lula. Ricardo Berzoini assegura o contacto com o PT. Sandra Brandão mantém-se como conselheira política da confiança pessoal de Dilma. Os assessores de escalão mais baixo são comandados por Giles Azevedo, também a ser investigado por corrupção pelo Supremo Tribunal Federal. E a propaganda continua a cargo de Marco Aurélio Garcia.

Igual a si mesma, Dilma Rousseff mantém no palácio Alvorada alguns dos tiques autoritários que exibia no palácio Planalto: impaciência, rispidez, síndrome de omnipotência e uma ira descontrolada que a leva a arremessar objectos de escritório aos interlocutores. Quanto a Michel Temer, actual Presidente em exercício e seu “vice” até há uma semana, Dilma deambula pelos corredores chamando-lhe “santinho de prostíbulo”, quando não pior.

A vida no palácio Alvorada, que até há pouco ainda se pautava por algum decoro presidencial, transformou-se entretanto num espectáculo embaraçoso de novo-riquismo. Numa extraordinária crónica da jornalista Thaís Oyama, publicada na revista brasileira ‘Veja’ há pouco mais de uma semana, vislumbra-se o crepúsculo trágico de uma mulher que tudo quis e tudo perdeu.

Os espelhos de água e a piscina parecem ser as zonas favoritas de Lula da Silva e seus acompanhantes, que passam grande parte do tempo no Alvorada. Aí discutem a política a seguir, tomando uísque e fumando charutos. Pelos recantos do palácio, que é guardado pelo Batalhão da Guarda Presidencial, encontram-se grupos de políticos ‘petistas’ em conciliábulos prosaicos junto a óleos, tapeçarias e esculturas dos grandes mestres. Mas o salão de banquetes para 50 lugares e os jardins desenhados pelo jardineiro do Palácio Imperial do Japão, Yoichi Aikawa, deixaram de atrair os convidados requintados de outrora.

Dilma refugia-se cada vez mais nos aposentos privados do segundo piso e evita até os servidores domésticos, que acusa de espionagem política. O seu mau humor alcança por vezes níveis de fúria, momentos em que arremessa objectos e usa palavras vernáculas. Para evitar mais conflitos com os criados presidenciais, o almoço passou a ser despachado através de um elevador para a faustosa sala de refeições, onde é servido em porcelana Companhia das Índias (século XVIII) sobre uma mesa Chippendale para dez pessoas. Ainda assim, pelo menos um cozinheiro já foi substituído por se ter enganado no ponto de cozedura dos ovos – o famoso “ponto Dilma”, de gema mole e clara dura.

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