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DISCURSO DIRECTO

O que as crianças dizem no relatório da Unicef, retrato das enormes dificuldades de uma Nação:

● Eu acho que o maior medo é a falta de dinheiro, o pior que podia acontecer era não termos comida, dinheiro sequer para comprar comida.

● Dantes, quase todas as semanas comíamos peixe fresco, pelo menos duas vezes por semana, e agora nem tanto. Às vezes nem uma vez por semana.

● A minha mãe deixou de comprar roupa nova para nós (…). Nós usamos aquela que temos. Sapatos, também é raro.

● Quando não há comida, os meus pais fazem isto: deixam de comer para dar à gente.

● Sim, vou deixar de ter Internet. Porque dizem que estão a pagar muito.

● Já não vou lá [ao Algarve] há quatro anos. O pai depois perdeu o emprego.

● Algumas coisas tenho notado… não só em coisas que a gente compra, a sítios onde a gente ia. Antes íamos quase sempre comemorar aos chineses, agora, ultimamente, temos ficado mais em casa.

● A minha mãe ficou sem trabalho (…). Ela decidiu tirar-me da natação, da ginástica, da música (…), do inglês.

● Ela [a mãe] tem a tensão muito elevadas, tem tonturas e anda sempre a queixar-se de que não pode comprar os medicamentos.

A situação demográfica nacional continua trágica, mas a verdade é que cada vez menos portugueses podem dar-se ao “luxo” de ter filhos.

Já em 2010, com José Sócrates como primeiro-ministro socialista, a Unicef alertava para a situação de pobreza (que ameaçava tornar-se crónica) das crianças portuguesas. Entre os 24 países desenvolvidos analisados por esta organização das Nações Unidas, Portugal tinha os jovens mais pobres, mesmo depois dos subsídios estatais.

Na altura, esta situação revelava duas realidades: os subsídios eram escassos, e não estavam a ser distribuídos entre quem necessitava deles – nomeadamente os filhos das famílias das classes trabalhadoras, que sendo pobres não eram suficientemente pobres para a eles se candidatarem.

Já os residentes dos bairros sociais continuavam a receber piscinas, electrodomésticos, internet e medicamentos gratuitos, entre outras benesses que talvez tivessem sido melhor entregues aos verdadeiros pobres. José Sócrates, no entanto, achou que o que realmente faltava às crianças portuguesas era o dispendioso computador Magalhães, enquanto muitas famílias não conseguiam comprar legumes para alimentar saudavelmente os seus filhos.

Desde então, a situação apenas piorou.

23,8% de crianças pobres

Os técnicos da agência das Nações Unidas ficaram tão chocados com as más políticas seguidas, antes e depois do colapso financeiro da Europa, que não resistiram a usar um termo sarcástico, derivado do infame “grande salto em frente” de Mao Tse-Tung. Tal como essa política teve efeitos desumanos, também a actual política europeia, a dita “solidariedade” entre os europeus, está a destruir o tecido social das nações que compõem a União Europeia.

Para o governo de Portugal, nunca houve grande escolha de políticas: a alternativa era a situação grega, ainda mais trágica do que a nossa. De facto, as famílias gregas perderam 14 anos de progresso, e com as políticas desmioladas de confronto do Syriza deverão perder ainda muitos mais.

Mas não há como fugir ao facto de que 23,8% das nossas crianças são pobres, bastante mais do que em 2008. E enquanto a ministra das Finanças pede aos nossos jovens que “se multipliquem”, eles continuam cronicamente desempregados, a carga fiscal sobre as famílias continua elevadíssima e os abonos continuam patéticos, apenas algumas parcas dezenas de euros por ano. Aliás, os “incentivos” oficiais chegam ao ridículo de “oferecer” 35 euros por filho (uma fortuna…) – ficando de fora os agregados que ganham mais de 8.800 euros anuais, ou seja, 620 euros por mês. Esses, pelos vistos, já são “ricos”.

No seu último relatório, a Unicef alerta para a emergência de uma geração perdida, visto que 14,2 dos jovens portugueses entre os 15 e os 24 anos não se encontram nem a estudar, nem a trabalhar, nem a frequentar cursos profissionais. Uma enorme subida em relação a 2008. Os técnicos avisam que estes dados não devem ser interpretados como resultados de “preguiça”, mas sim de falta de oportunidades causadas pela enorme crise social que se vive.

“Transformação revolucionária”

Num estudo encomendado pela Unicef à famosa empresa Gallup, os especialistas concluíram que entre 2007 e 2014 os chefes de famílias portugueses foram os que chegaram mais vezes ao fim do mês sem dinheiro para alimentar os filhos. Histórias não faltam de muitos adultos que apenas comem um iogurte ao almoço para ter algo para dar aos seus filhos.

Infelizmente, também não é segredo (basta perguntar a qualquer professor) que muitos jovens desmaiam durante as aulas da manhã porque não tomaram o pequeno-almoço. Para os jovens certamente não é um segredo: um deles contou à Unicef que “alguns [colegas da escola] não devem comer muito, ou mesmo não devem ter refeições (…). Eles não contam, mas dá para reparar”.

São retratos pungentes da sociedade da III República, cujo objectivo era a “transformação revolucionária e o início de uma viragem histórica da sociedade portuguesa”, como reza a nossa Constituição. Foi, pelos vistos, uma viragem para pior, tendo em conta que existem hoje mais pobres em Portugal do que em 1974. Não falamos de remediados, nem sequer de pessoas em situação de relativa humildade de meios, mas sim de pessoas que passam por grandes privações: um em cada quatro portugueses encontra-se nessa situação.

A desigualdade entre rendimentos também é hoje muito mais alta do que em 1974, um cartão vermelho para a classe política que, pelos vistos, andou a dormir durante 40 anos.

Geração do sofrimento

Os psicólogos há muito avisam que os mais pequenos sentem, embora não compreendam os detalhes, quando existem problemas financeiros no aglomerado familiar.

A própria Unicef reconhece que os efeitos psicológicos entre os nossos jovens serão profundos, com o potencial de prejudicar os seus resultados escolares, bem como a sua formação enquanto adultos. As crianças portuguesas são, entre as europeias, aquelas que vivem em maior ‘stress’, e muitas vivem no terror de verem os pais desempregados.

Como afirmou uma pequena aos técnicos da Unicef: “Tenho medo de ficar pobre”. A maioria já considera a emigração como o único destino para ter um futuro, uma crença que poderá deixar Portugal ainda mais desabitado.

O certo é que as famílias perderam oito anos de progresso durante os últimos anos. O governo afirma desejar que os jovens se multipliquem, mas poucos incentivos à natalidade ainda foram apresentados. Esta parece ser mesmo uma das piores alturas das ultimas décadas para ter filhos.

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