O ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis, continua nas bocas do mundo. Desta vez, está em causa um gesto malcriado, uma paródia televisiva, as suspeitas de manipulação de imagens e a defesa de certa Imprensa, dita de referência. Uma crónica sobre a desinformação politizada de esquerda.

Zagreb, 15 de Maio de 2013. Está a decorrer a 6.ª edição do Festival Subversivo, um evento anual que, durante quase uma semana, reúne na capital croata os expoentes culturais e políticos da esquerda radical para um ciclo de conferências e debates. Entre os oradores, nesse ano, estão personalidades como o realizador norte-americano Oliver Stone, o filósofo marxista esloveno Slavoj Žižek, o líder do partido Syriza e actual primeiro-ministro grego Alex Tsipras e o antigo líder do Bloco de Esquerda Francisco Louçã.

Esta edição do Festival ficaria marcada por uma controversa piada de Žižek, que numa mesa-redonda sobre “O papel da Esquerda Europeia”, comentou perante o sorriso de Alex Tsipras que na sua “visão do futuro democrático, todas as pessoas que não apoiem o Syriza deveriam receber um bilhete de primeira classe, apenas de ida, para um Gulag”.

Um dia antes deste episódio, num pequeno auditório, um ilustre desconhecido apresentava a segunda edição do um livro publicado em 2011 com o título “O Minotauro Global: América, Europa e o Futuro da Economia Global”. O autor chama-se Yanis Varoufakis, é economista e Professor na Universidade do Texas, mas poucos o conhecem fora do meio académico.

No período de questões que se segue à apresentação do livro, um membro da audiência questiona Varoufakis sobre as possibilidades de permanência no Euro da Grécia e de outros países do Sul da Europa. Na resposta, o economista grego defende que a Grécia devia ter entrado voluntariamente em falência em Janeiro 2010, sem sair do euro, e “mostrado o dedo à Alemanha, dizendo: bem, resolvam vocês o problema” Varoufakis pronuncia a frase “stick the finger to Germany” enquanto ergue o dedo médio da mão esquerda, num gesto ofensivo universal que dispensa traduções.

De dedo em riste

Avançamos para 2015 e Varoufakis é agora ministro da Economia da Grécia e grande ídolo da esquerda europeia. Trocou os anfiteatros de Austin pelos corredores de Bruxelas e os Festivais Subversivos pelas páginas da “Paris Match”, onde se fez fotografar abraçado à esposa com o Parthenon como pano de fundo.

O Syriza ganhou as eleições, Alex Tsipras é o primeiro-ministro, mas nem oposição embarcou ainda para o Gulag de Žižek nem o problema da dívida grega está resolvido. A ‘troika’ deu lugar às “instituições” e o novo governo de esquerda radical procura desesperadamente o financiamento para evitar a bancarrota do país.

As negociações são duras e as tensões entre a Grécia e a Alemanha estão ao rubro. A 15 de Março, Yanis Varoufakis é o convidado do ‘talk-show’ de Günther Jauch, um dos programas de maior audiência na Alemanha, transmitido em horário nobre pela televisão pública germânica ARD. Em directo, o apresentador confronta o ministro grego com um excerto do vídeo captado em Zagreb e disponível no Youtube no qual Varoufakis mostra o dedo à Alemanha. Perante o espanto de Jauch, o ministro nega a autenticidade do vídeo afirma que a gravação foi manipulada.

Poucos dias depois, o programa satírico Neo Magazin Royale, transmitido pelo canal público ZDF, apresenta um falso documentário explicando como teria manipulado o vídeo das declarações de Varoufakis, com recurso a filmagens em estúdio e um complexo trabalho de edição digital. O mesmo programa já tinha produzido o vídeo “V for Varoufakis”, que se tornou um fenómeno na internet ao ironizar a forma como o ministro grego tem sido apresentado pela imprensa germânica (“he puts the hell in Hellenic”).

O ‘sketch’ é naturalmente absurdo e expõe o ridículo da afirmação de Varoufakis, ao mesmo tempo que critica a atitude sensacionalista de Günther Jauch. No final, o apresentador do programa, o humorista alemão Jan Böhmermann, explica que Varoufakis está errado e a gravação não foi falsificada, responsabilizando Jauch e a sua equipa por tirarem o vídeo do contexto a fim de “alimentar a paixão alemã pela indignação”.

Desinformação

A partir daí começa o descalabro. As agências de notícias internacionais, talvez devido a um fraco entendimento da língua alemã, começam a espalhar a notícia de que o vídeo do dedo de Varoufakis é falso. Jornais internacionais de referência como o “The Guardian” juntam-se prontamente à vaga, num sinal dos perigos do jornalismo em tempo real, em que a verificação de factos foi abandonada.

Em Portugal, a agência Lusa dá o mote e todos os grandes meios de comunicação reproduzem a notícia. À hora de almoço o ‘sketch’ humorístico chega a ser emitido pelos noticiários televisivos, como prova da inocência de Varoufakis. Perante a dimensão dos acontecimentos, Jan Böhmermann publica um vídeo no Youtube esclarecendo de uma vez por todas que o vídeo do dedo de Varoufakis é genuíno e que o documentário transmitido no Neo Magazin Royale é uma paródia. No entanto, os estragos estão feitos. São publicadas algumas notícias que repõem os factos, mas sem o destaque das notícias anteriores.

Na Croácia, Martin Beros, o responsável pela edição do vídeo do Festival Subversivo, confirma à Reuters que a versão “original” inclui o dedo de Varoufakis, mas já ninguém quer saber. A maior parte do público ficou com a ideia que Varoufakis nunca mostrou o dedo à Alemanha.

Chama-se a isto desinformação.