Velha Lisboa ganha vida e lidera recuperação

Velha Lisboa ganha vida e lidera recuperação

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Os ricos investem em zonas ‘chic’ da capital. O comércio está com novo fôlego e todos os dias abrem lojas de artigos de luxo. Mas de volta está também o crime: a venda de droga no Bairro Alto preocupa as autoridades e o Governo já deu luz verde às câmaras de segurança.

Lisboa está na moda. Os últimos dois anos têm sido excelentes para o turismo da capital. A cidade recebe cada vez mais pessoas, a economia local ganha um novo fôlego e a autarquia arrecada financiamento que lhe permite e permitirá reabilitar algumas das áreas mais degradadas.

Paralelamente, e fruto do grande investimento em ‘marketing’ e comunicação, a cidade tem ganho grande notoriedade no estrangeiro, sobretudo devido às reportagens e artigos que dão conta de que Lisboa está na moda e tem alguns dos locais mais aprazíveis para visitar em toda a Europa, uma mistura de ânsia cosmopolita, praia, cultura e História – e por isso é presença assídua nos ‘rankings’ de viagens e turismo.

O Bairro Alto é a montra desse sucesso. São cada vez mais os restaurantes a abrir portas e volta a haver filas de espera na rua para se jantar – algo impensável há bem poucos meses. Algo mudou na economia.

As mercearias de bairro estão de volta. Ainda que pela mãos de chineses e indianos. A capital está com novo fôlego e poderá ajudar a dar um empurrão à restante economia nacional.

A crise parece não estar a afectar o comércio de rua em Lisboa. Sobretudo quando falamos no segmento de luxo. Só na Avenida da Liberdade abriram dez lojas no ano passado e oito este ano. Para 2015 está prevista a abertura de, pelo menos, mais sete marcas de luxo.

Quem anda pela Avenida tem que andar com cuidado, desviando-se constantemente de materiais de construção usados nas remodelações das lojas.

“Neste momento, o [sector do luxo] só não cresce mais porque não temos uma oferta suficientemente adequada aos requisitos exigidos pela procura”, disse Sandra Campos, directora de retalho da consultora imobiliária Cushman & Wakefield (C&W), citada pelo ‘site’ Dinheiro Vivo.

Segundo aquela responsável, “falta fazer a reabilitação de muitos imóveis, em várias partes da cidade, para criar espaços novos”. “E falta, por outro lado, apurar os primeiros resultados da alteração à lei do arrendamento. [Não fosse isso e] teríamos registado um número ainda maior de aberturas”, referiu.

O comércio de rua está vivo na capital e não é só na Avenida da Liberdade. Os números são claros: entre 2013 e 2014, abriram nas principais (e mais caras) zonas de retalho de Lisboa, incluindo o Chiado, a Rua Castilho, a Baixa e o Príncipe Real, quase 70 novas lojas.

“Os chineses continuam a ser os principais clientes deste tipo de marcas [de luxo]”, adiantou àquela publicação Patrícia Araújo, responsável de retalho da consultora Jones Lang Lasalle (JLL). Seguem-se brasileiros, angolanos e russos.

Em média, cada um destes estrangeiros gasta 871 euros por cada compra efectuada.

Habitação

lisbon-424609Nos últimos meses cresceu o investimento em habitação na capital portuguesa.

A Baixa e o Chiado são as preferidas dos investidores, mas também de jovens. Lisboa tem praia, rio, sol, temperatura, segurança… os ingredientes essenciais para se impor como uma capital do turismo.

Segundo um estudo publicado em Setembro pela consultora imobiliária Cushman & Wakefield, no primeiro trimestre a procura de casas em Lisboa subiu 60 por cento.

A zona onde se praticam os preços de venda mais altos é o Parque das Nações (3.625 euros por metro quadrado), mas zonas até há pouco consideradas menos apetecíveis em termos de residência de prestígio, como a Avenida Almirante Reis, podem vir a tornar-se bairros preferidos pela classe média no pós-crise.

A Baixa e o Chiado são as preferidas dos investidores, mas também de jovens. São eles que impulsionam a reabilitação de casas velhas.

Nas classes média e média-alta, os casais com filhos pequenos e os casais reformados procuram, sobretudo, casas na zona do Parque das Nações. Esta preferência estende-se a muitos estrangeiros, nomeadamente chineses, franceses, angolanos e brasileiros.

O facto de ser uma zona de construção recente e a vantagem de estar perto de transportes e do comércio são as grandes mais-valias. Sem esquecer a vista para o rio e o facto de ser uma das zonas com mais condomínios com segurança 24 horas por dia.

Os privilégios pagam-se: um T1 na parte mais central do Parque das Nações pode chegar a 250 mil euros. Em 2013, a Remax vendeu (a chineses) um T4, com terraço e piscina, por 1 milhão e 200 mil euros.

Mas há outras zonas procuradas por quem tem algum dinheiro. É o caso de Campo de Ourique e Rato (zonas centrais), mas também Telheiras (zona mais sossegada).

Taxa turística avança

Com este novo fôlego, surgem os oportunistas do costume.

A Taxa Municipal Turística de Lisboa, que prevê a cobrança de um euro a cada passageiro que desembarque no aeroporto ou no porto da capital, para além de uma sobrecarga nas dormidas turísticas, que pode ir até aos sete euros por pessoa, foi aprovada pela autarquia da capital – liderada pelo socialista que quer ser primeiro-ministro mas que, “para já”, não larga a Câmara, ao contrário do que solenemente prometera no passado caso viesse a liderar o PS.

A proposta foi debatida em reunião de Câmara e foi aprovada, com os votos favoráveis do PS e movimento Cidadãos por Lisboa (eleitos nas listas socialistas) e contra do PSD, PCP e CDS-PP.

A partir de Abril do próximo ano, todas as pessoas que visitarem Lisboa por via área, e não residirem no país, vão estar sujeitas à taxa de um euro. Inicialmente, a Câmara propusera que apenas se exceptuassem os residentes da capital.

A entrada em vigor da cobrança no porto de Lisboa foi alterada, passando para 1 de Janeiro de 2016. Nesta mesma data entrará também em vigor a taxa sobre dormidas.

O vice-presidente do município, Fernando Medina, afirmou que a Câmara dá assim “resposta ao fundamental das objecções levantadas” durante o período de consulta pública, entre 20 de Novembro e 3 de Dezembro, tentando não abranger “pessoas que não estão na condição de turista”.

Fernando Medina referiu que ainda não está definida a forma de cobrar a taxa no aeroporto, que dependerá de um protocolo com a ANA/Aeroportos de Portugal. Mas, à partida, “o pagamento será feito directamente no bilhete de avião” e, caso não seja possível aplicar logo as isenções, haverá “um mecanismo de reembolso”.

Ou seja, quando cheira a dinheiro, os nossos políticos pouco se preocupam com o cidadão. O saque é momentâneo e nem esperam que o País se levante da fossa onde estes responsáveis políticos o colocaram.

Contestação

tram-535946Em declarações à agência Lusa, o vereador social-democrata António Prôa questionou: “Como é que é possível [a Câmara] não cobrar a quem vem de automóvel e de comboio” a Lisboa, na condição de turista e que não reside no País?

Para António Prôa, a designação de taxa não se adequa: “Quem chega a Lisboa e vai para Sintra, Cascais e Fátima, não tem nenhum serviço prestado só por aterrar no aeroporto”.

Também o centrista João Gonçalves Pereira tem “dúvidas se é uma verdadeira taxa, se não é um imposto”, por não implicar qualquer serviço.

Quanto às dormidas, a taxa só entra em vigor em 2016, tendo um custo máximo de sete euros por pessoa. Estarão isentos “os hóspedes cuja estada seja motivada pela obtenção de serviços médicos”, de acordo com os anexos à proposta agora aprovada.

Do lado do PCP, Carlos Moura perguntou se “um advogado de uma outra parte do País que tem de pernoitar em Lisboa” é considerado turista, já que terá de pagar a taxa de dormida.

A Taxa Municipal Turística vai financiar o Fundo de Desenvolvimento Turístico de Lisboa, que também foi aprovado na reunião da semana passada, com os votos contra do CDS-PP e PCP, abstenção do PSD e votos favoráveis dos socialistas.

Na reunião foi ainda aprovada a criação de uma Taxa Municipal de Protecção Civil, que visa financiar investimentos no sector, contando com os votos contra da oposição. Esta taxa vem substituir a de conservação e manutenção dos esgotos, que se junta à do saneamento.

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Onde pára a polícia?

As ruas que ligam o Príncipe Real ao Bairro Alto e o Bairro Alto ao Cais do Sodré, em Lisboa, têm registado uma vida bem diferente da habitual.

Na semana passada, os repórteres d’O DIABO foram constatar isso mesmo. Durante a semana, bem depois da meia-noite, circular pelos passeios destas ruas é uma autêntica prova de obstáculos.

São centenas de portugueses e turistas que se divertem em plena rua a caminho dos bares da zona. A música e o ambiente nocturno festivo contrastam em muito com o ambiente registado há poucos meses, exactamente às mesmas horas.

Mas o lado negro da Velha Lisboa também regressou em força: a venda de droga, por exemplo. Na passada semana, os repórteres deste jornal foram abordados sete vezes em plena rua – entre o Príncipe Real e o Cais do Sodré – por traficantes de estupefacientes.

O sentimento de insegurança instala-se e a presença policial que se vê nestas zonas ao fim-de-semana terá que ser repensada também para durante a semana. Ainda que os meliantes já conheçam os esquemas policiais: quando as carrinhas da PSP surgem, a venda de droga muda de lugar.

Actuando geralmente aos pares, estes vendedores abordam discretamente quem passa. A proposta resume-se a um discreto e quase inaudível “queres erva?”.

Os agentes da autoridade conhecem o esquema, mas pouco conseguem fazer, uma vez que quem aborda geralmente não tem consigo grandes quantidades de droga.

Os fornecedores misturam-se entre a multidão à espera do sinal para abastecer.

Videovigilância

portugal-105880Por saber deste aumento de turismo no Bairro Alto – e consequente aumento de actividades ilícitas – a Secretaria de Estado da Administração Interna renovou a autorização para o funcionamento das câmaras de videovigilância.

As câmaras de videovigilância no Bairro Alto entraram em funcionamento a 22 de Maio deste ano, com uma autorização para o seu funcionamento durante seis meses, após o contrato para a instalação do sistema ter sido assinado pela Câmara de Lisboa em Outubro de 2012.

Dada a aproximação do fim do prazo para funcionamento do sistema, a Direcção Nacional da Polícia de Segurança Pública pediu ao Governo para renovar a autorização, que passará a ter efeito por um período de dois anos a contar de 23 de Novembro, segundo o despacho já assinado pelo secretário de Estado Adjunto da Ministra da Administração Interna, Fernando Alexandre.

“Tendo em consideração os fundamentos apresentados pela Direcção Nacional da PSP, nomeadamente o relatório estatístico da criminalidade registada no Bairro Alto, considera-se que está comprovada a manutenção dos fundamentos invocados para a concessão da autorização, preenchendo o sistema todos os requisitos legais e regulamentares”, pode ler-se no despacho.

De acordo com dados enviados à agência Lusa pela PSP, entre Maio e Setembro registou-se uma diminuição do número mensal de ocorrências, de 66 para 50.