Canadá

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Da América, terra das hamburgas, do frango frito e da boa cola, eis que nos chega mais um grande romance. É engraçado o preconceito: a esquerda acha que à direita nada existe; a direita acha que na América é o deserto.

Pode ser o paraíso da tecnociência e a origem de muitos devaneios, como sugeriram alguns críticos, mas é de lá que vem muita da melhor literatura de sempre. E a melhor dos nossos dias. E quando vejo aqueles “estudos” patetas referirem que 50 por cento dos americanos ou coisa do género, não sabem identificar o país no mapa, pergunto-me quantos portugueses existirão em condições equivalentes. Mas vamos ao que interessa.

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Dell Parsons é o rapaz que aqui vamos seguindo, durante a década de sessenta.  Melhor, é ele que nos conta a sua odisseia, muitos anos depois, nos nossos dias, para sermos mais correctos, após vários anos dedicados ao ensino. Dell Parsons, que vivia com os pais e a irmã gémea, uma vida rotineira, vulgar, vê-a  transformar-se completamente quando os pais assaltam um banco para conseguirem pagar uma dívida contraída num pequeno esquema fraudulento. A partir daí é a partida, da irmã para a Califórnia, que é para onde vai quem sonha sonhos datados, para o Canadá, de Dell, levado por uma amiga da mãe. E é lá, em Saskatchewan, que vai conhecendo o mundo, que se vai fazendo homem, que vai descobrindo segredos e revelações que não trazem promessas de abundância, mas apenas de repetições, de tempos cíclicos, de sofrimentos em que é fértil a humanidade desde que abandonou a Aliança primordial.

História feita de paisagens estéreis, de objectos que morrem, de locais decrépitos, história que se podia passar num qualquer estado dos EUA, mas cuja acção se desloca, miraculosamente, para o Canadá, esse país absolutamente desinteressante, pelo menos na minha imaginação. Não cria, sinceramente, que lá se pudesse desenvolver uma história com substância, mas isso deve derivar da minha desconfiança contra esse país que tem a maior percentagem de água doce do planeta, mas nunca nos deu mais do que os poemas de Leonard Cohen – e já não é mau. Richard Ford faz mais pela literatura canadiana do que qualquer outro até hoje. Mas, provavelmente, estou a ser injusto. Não me lembro de nada oriundo de lá, mas sei que deve existir, algures, grande literatura canadiana. Se chega a esta, que se passa junto à fronteira, mas que não supera qualquer capítulo da Trilogia da mesma de Cormac McCarthy, é que é muito mais complicado.

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