Cavaco condecora e vai embora

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Manuel Silveira da Cunha

O irrelevante presidente Cavaco Silva resolveu sair em grande! Resolveu condecorar um grupo exemplar de personalidades da vida política portuguesa. Em final de mandato, Cavaco cumpre as suas últimas vontades. Pouco dado à oralidade, a frase mais utilizada por Cavaco ao longo do seu mandato foi: “não posso comentar”, no entanto Cavaco é prolífero em sinais, em tabus e em profecias. A sua interpretação tornou-se uma especialidade na imprensa portuguesa e nos comentadores em geral.

Há centenas, talvez mesmo milhares de pessoas que devem o seu emprego a Cavaco. A “cavacologia” tornou-se uma especialidade científica, é uma variante da hermenêutica, área afim da semiótica e da interpretação dos sonhos. Esta disciplina científica tem origens remotas e ilustres: desde os sacerdotes de Osíris a ler no voo dos pássaros até aos Oráculos de Delfos, são quatro mil anos de estudos que se cristalizaram nas leituras semióticas e hermenêuticas sobre temas de Cavaco Silva e sua esposa.

Ele foi o Tabu presidencial, eles são os discursos cabalísticos com apelos saídos de uma imaginação profunda, eles são as vulnerabilidades informáticas e as escutas, eles são as ameaças de dissolução que não se cumprem, eles são os conselhos de Estado para debater o fim da crise a meio da mesma, e no meio do nada, e a ausência de conselhos de Estado para estudar o que fazer no pós eleições, eles são as aberturas espantosas de boca a fingir embevecido espanto, eles são as mastigações fogosas de bolo-rei com copiosas projecções de migalhas, saliva e espuma bocal, eles são os desmaios a meio de cerimónias oficiais com discursos enfáticos, hieráticos e os apelos profundos, proferidos por um Cavaco senhor de uma importância e de um impacto que julgava ter, e tem nos milhares de comentadores, mas que nunca teve no Mundo, incapaz de reconhecer a sua irrelevância e a de um país que ele ajudou a fazer mais pequeno e que gera menos receita do que qualquer farmacêutica, qualquer petrolífera ou mesmo uma empresa de software global…

Tenho pena do que vai acontecer aos cavacólogos passados ao desemprego. De todos menos de um, um cavacólogo reformado será o novo presidente da república e esperamos todos que Marcelo Rebelo de Sousa tenha aprendido, com o estudo aprofundado em muitos anos, a não cometer os mesmos erros que o seu objecto de estudo! Tem a vantagem, num presidente, de conseguir comer bem em público, o que já é um grande passo na restauração da grandeza de Portugal.

Cavaco será sempre Cavaco, mesmo no fim; se já ninguém se lembra do senhor, ele faz-se lembrado. Ele condecora Maria de Lurdes Rodrigues, exemplo fantástico de defensora da causa pública, e dos bens públicos, e condecora António de Sousa Lara. Vejamos este último.

A esquerda vocifera, diz que Sousa Lara vetou Saramago! Que Cavaco não passa de um bandalho, que sai mal, até ao final “é mau, mesquinho, feio, porco e mau”. Nas redes sociais Rui Vieira Nery vem lamentar-se e escreve sobre o currículo de Lara, esquecendo-se, de forma apropriada mas maldosa, dos textos académicos mais sérios do professor catedrático do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas de Lisboa da Universidade de Lisboa, num processo típico de redução ao ridículo do opositor, por este ser especialista em genealogias e heráldica, quando tem publicado abundantemente em história, sendo o tratado de Sousa Lara sobre a subversão do Estado um valioso contributo científico.

Mas é neste sinal último, no seu momento derradeiro, que Cavaco tem um dos seus pouquíssimos momentos de pequena grandeza. Saramago é uma vaca sagrada, depois do Nobel não há quem critique o homem, a senhora Pilar arroga-se fazer o papel de vestal da causa, apesar de não reunir os requisitos, como se imagina, no templo do demiurgo Saramago. Ter vetado Saramago, e demonstrado essa coragem, é de homem. Saramago foi um mau escritor, pomposos e mesquinho, incapaz de uma boa gramática e sem saber pontuação, um homem ressentido, no pior sentido do termo, agressivo e maldoso, que teve a suprema vileza de afirmar que a Bíblia, que ensinou o humanismo ao Homem, é um livro de maldade e guerra. Saramago ganhou o Nobel porque os tradutores conseguiram transformar esboços em obras acabadas, nomeadamente melhorando a compreensão dos textos e a pontuação dos mesmos. Saramago passa por demiurgo por ser apenas muito prolixo e obscuro, mas pelo menos teve a manha de se conseguir fazer passar por melhor do que era. Conseguiu, assim, um grande feito: um bufão que aparenta ser águia é façanha que Cavaco não conseguiu nunca almejar apesar do discurso oracular mas sem obras. Sousa Lara é mais fino e percebeu, para além da crosta bruta de refinamento, o verdadeiro Saramago. Apenas por isso mereceria ser condecorado com o Grande Colar da Ordem de Santiago da Espada. Cavaco condecora-o ao mesmo tempo que Maria de Lurdes Rodrigues…

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