A Papisa Joana

A Papisa Joana

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O mito em forma ficcionada

Desta vez seja-nos permitido começar pelo tradutor. “Conheci” Aníbal Fernandes há vinte e poucos anos, era eu estudante. “Conheci-o” através das traduções que fazia para a saudosa Hiena, e era uma alegria sempre que a pequena editora lançava algum novo título. Marcel Proust, Ezra Pound, T. S. Eliot, Louis-Ferdinand Céline, Antonin Artaud, Friedrich Nietzsche, Georges Bataille, Franz Kafka e muitos outros nomes por ali passaram.

Eu, e outros, ficámos a conhecer alguns graças ao trabalho de Aníbal Fernandes. Extinta a editora,voltei a encontrá-lo na Assírio, onde nos brindou com Honoré de Balzac, por exemplo. Agora, e quando aquela editora é uma pálida sombra do que foi, este senhor continua a oferecer-nos a sua erudição e talento na Sistema Solar. E desde que surgiu, há uns três anitos, já lançou cá para fora Henry James, Irène Nemirovsky, Georges Bataille, Victor Hugo e outros que tais, num catálogo que já vai a caminho dos trinta títulos. Muitos deles, mais uma vez, pela mão de Aníbal Fernandes que, discretamente, tem vindo a realizar este trabalho excepcional. E, como outros, longe dos holofotes.

Uma das obras mais recentes saída através desta chancela é este “A Papisa Joana”. Escrito por Emmanuel Rhoides, autor do século XIX, é uma deliciosa incursão no mito, relatando-nos as peripécias daquela que haveria de ser coroada papisa, de acordo com a lenda. Numa altura em que nos deparamos com secções próprias nas livrarias dedicadas ao romance histórico, as mais das vezes de qualidade mais do que duvidosa e em que a investigação é pouco melhor (?) do que zero – já para não falar na narrativa miserável –, é uma alegria encontrar estes clássicos novecentistas, época em que é sabido ter este género de literatura encontrado a sua máxima expressão, no que diz respeito à qualidade.

Diz-nos Aníbal Fernandes que Emmanuel Rhoides “tinha nascido nas Cíclades, já iam quarenta e um anos, e não eram alheios à sua erudição os privilégios de um filho de embaixador que vivera em Génova, estudara literatura, história e filosofia em Berlim, levara a sua curiosidade arqueológica ao Egipto e aos restos da civilização dos faraós: tudo evidências de um bom tempo mais tarde enegrecido com o desastre financeiro dos Rhoides, o suicídio de um irmão importante como sustentáculo da família arruinada, a sua demissão do lugar de director da Biblioteca Nacional da Grécia (por causa de panfletos políticos que incomodavam o poder de Atenas), aquela esclerose dos tímpanos que nenhum médico conseguiu travar antes da surdez. Em 1904 a morte levou-o em pobreza e nostalgia; e cortava-o, sexagenário, da Grécia terrena que ele tanto tinha querido amar”.

Devo dizer que nunca tinha ouvido sequer falar deste senhor, mas pelo que li vale bem a pena, e pena é que seja um dos poucos nomes de relevo na literatura grega da época. Porque escreve com uma sensibilidade invulgar, um humor refinado, um ‘esprit de finesse’ mais francês (quando o têm) do que helénico. Este senhor representa bem o espírito despreocupado e solar do homem mediterrânico, o qual consegue coisas notáveis quando quer – e veja-se como Chesterton o elogia numa obra recentemente lançada entre nós e da qual falarei aqui proximamente (“O Sobrenatural é Natural”, edição da Alêtheia).

Andam por aí, entre essa plêiade de romances históricos ou pseudo, alguns sobre a “papisa Joana”. Não sei se quem os escreveu conhece esta versão do mito. Se não, talvez devesse. Porque, em caso afirmativo, poderia pensar duas vezes antes de se aventurar à escrita. Ou poderia aprender qualquer coisa que lhe seria útil futuramente. Agora, superar a leveza, a alegria, a perfeição estética deste escrito é que não conseguiria. Porque o que temos aqui é a versão definitiva e final do mito em forma ficcionada.

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