PAULO FERRERO 

Um pouco por todo o mundo, literalmente (desde cinematecas e universidades dos ainda ingratos EUA a cinemas e festivais por Brasil, Inglaterra, Itália, França, claro, Polónia, Alemanha, e Suíça – sim, a que Harry Lime parodiou indelevelmente em “O Terceiro Homem”), celebra-se o centenário do nascimento de Orson Welles, nascido a 6 de Maio de 1915, em Kenosha, no estado do Wisconsin, e Lisboa e a Cinemateca Portuguesa a isso não podiam ser indiferentes, e muito bem, ainda que o génio mereça sempre muito mais que uma retrospectiva a 8 dos seus quase 50 filmes, entre as longas e as curtas-metragens, completas e inacabadas, do seu legado.

Seja como for, e como a TV já raramente os passa, nada melhor do que aproveitar esta oportunidade e rumar ao Museu do Cinema para rever na tela alguns momentos-chave da 7.ª Arte, da exclusiva responsabilidade de Welles: o trenó da infância desaparecida e o esgar labial final de Charles Foster Kane, em “Citizen Kane”, a cavalgada pela neve e os planos na escada da mansão dos “Magnificent Ambersons”, a sequência das três parcas e o olhar esgazeado de Macbeth pelos corredores do castelo de Cawdor, os claros-escuros de Otelo e Iago e aquelas muralhas de Essaouira, o baile de máscaras e o ‘frame’ de Mr. Akadin aos comandos do seu avião.

Um dia far-se-á a homenagem devida a Welles, exibindo-se todos os seus filmes (aí já todos completos) mais os em que participou, mesmo os “abaixo de cão”, e a rádio há-de emitir ininterruptamente o teatro radiofónico da sua Mercury, intercalado pelo relato pormenorizado da terrível invasão de marcianos de “A Guerra dos Mundos”, de Wells (sem “e”). E haverá magia e truques pelo próprio Orson, ‘réclames’ para todos os gostos, muitos charutos e ‘whisky’, touros de morte e Rita e Oja, pelo menos essas duas, e Joseph Cotten, claro. Tudo como se se tratasse do fabuloso plano-sequência inicial de “Touch of Evil”.

E no fim ver-se-á o microfone desaparecer do nosso campo de visão e ouviremos apenas: “I wrote the script and directed it. My name is Orson Welles”.

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