Reformatório com ela!

PAULO FERRERO

Comprova-se em “A Criança n.º 44”, mais uma vez, que um bom elenco e um ‘best-seller’ como ponto de partida, ou uma produção milionária e tecnologicamente apetrechada, não fazem obrigatoriamente um bom filme.

Neste particular conseguiu-se apenas um enorme pastelão, em que se tenta meter o rossio na betesga (mais precisamente, 444 páginas do 1.º tomo da trilogia de Tom Rob Smith, galardoada em 2008, em duas horas de filme de um tal de Daniel Espinosa) à custa de uma montagem pretensa mas toscamente ágil (ao jeito do que o director de fotografia Oliver Wood nos habituou, aliás) e de episódios históricos por comprovar (ou rebater, no mínimo), cenas de pancadaria caricatas em que só se ouvem socos e se imagina o resto, alguns carros sovietes no mínimo curiosos, e um comboio que acaba por saturar quem gosta do “pouca-terra”, tantas vezes ele teima em cruzar o ecrã.

Ao filme de nada consegue valer o bom gosto de Ridley Scott (produtor-mor e com direitos de autor sobre o livro de Smith), até porque ultimamente o autor de “Alien” tem vindo a presentear-nos com filmes chatos e compridos, o que no caso presente é mesmo um abuso.

Pelo meio há uma história que pretende ser um ‘thriller’ sobre um assassino em série que semeou crimes na zona de Rostov, entre 1978-90, mas também uma história de amor, um manifesto político e, já agora, um ajuste de contas (oportunístico) com a História, numa altura em que se comemoram os 70 anos do final da Segunda Guerra Mundial. Tudo somado no fim é quase nada.

Tom Hardy parece que ficou com os tiques e ademanes de “Mad Max”, excepção feita às cenas finais em que dá um ar da sua graça. Aplauso para a sueca Noomi Rapace, já uma senhora actriz, e para a sobriedade do irrepreensível Gary Oldman, claro. No resto é bater forte e feio nos sovietes até dizer basta! Sabe a pouco.

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