ODIABO300x100

PEDRO JACOB MORAIS

  • Título português: Francofonia
  • Título original: “Francofonia”
  • Realização: Alexandr Sokurov

“Francofonia”, a visão do museu do Louvre pelo cineasta russo Alexandr Sokurov, socava mais do que obras de arte. Socava uma Paris de artistas, sejam pintores ou escultores, um mundo de artistas concentrado em Paris. Uma Paris conquistadora e, ulteriormente, conquistada. Cidade aberta, intocável, acervo universal da loucura da guerra. Um museu à beira do saque das obras que saqueou, conservadores franceses e alemães, viagens de barco a afundar a carga preciosa, templos trasladados, segredos subterrâneos.

A obra se Sokurov surge irrepreensivelmente filmada numa miscelânea de técnicas – da película à imagem obtida com recurso a “drones”. O objecto centra-se na Paris ocupada pela Alemanha em contraposição à miséria colaboracionista, mais especificamente, centra-se em torno dos diálogos entre o conservador francês do Louvre e o homólogo germânico responsável pela curadoria da arte (“Kunstschutz”) na Europa. Às imagens de arquivo e à recolha fotográfica alia alguns diálogos ficcionais entre as duas personagens, bem como uma videochamada com um cargueiro carregado de obras de arte e envolto numa poderosa tempestade.

O que seria França sem o Louvre ou a Rússia sem o Hermitage? A história dos museus, tal a história geopolítica dos Estados que os albergam, faz-se de expansão, seja através da consecução de um espaço vital, grande espaço ou qualquer um dos seus sucedâneos, faz-se de conquista, de dominadores e dominados. A trama da humanidade traz-nos, num incessante movimento pendular, saques idênticos. “Francofonia” apresenta, num interessante truque de espelho, o saque nacional-socialista e o saque napoleónico, sublinha o passado sem o matizar, sem efabular o tríptico da Revolução Francesa – por vezes aparece uma “República” que repete lacónica a sua cartilha semântica.

Grandes homens, obras imensas, pedaços soltos e esquecidos, burocratas e as suas missivas. Em suma, um gigantesco coloide que construiu o Louvre, pedra por pedra.

COMPARTILHAR