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PAULO FERRERO

  • Título original: Carol
  • Realização: Todd Haynes
  • Com: Cate Blanchett, Rooney Mara, Sarah Paulson, Kyle Chandler, Sarah Paulson
  • EUA/FRA/GB, 2015, 118 min.

“Carol” é um belíssimo filme, sobre uma história de amor, provocadora q.b., na linha, mais coisa menos coisa, do que tem sido o fio-condutor da obra de Todd Haynes: uma obra curta mas marcante e de que “Longe do Paraíso” (2002) continua a ser o ponto mais alto, ainda que tenha sido rotulado na altura como uma mera homenagem-decalque ao cinema de Douglas Sirk.

Desta vez há um toque de intriga psicológica, quase policial, à Patricia Highsmith (na verdade, o livro em que o filme se baseia, “The Price of Salt”, baseia-se na vida real da própria autora, que chegou a ser empregada de comércio e se enamorou por várias mulheres casadas), mas mantém-se naquele encantamento visual de sempre, aqui fruto do perfeccionismo com que Haynes volta a reconstituir mais uma vez os anos 50, numa América sempre hipócrita.

Mas continua a ser um cinema de cariz psicossexual, marcado indelevelmente pela homossexualidade, e um cinema de detalhes. “Carol”, aliás, é acima de tudo um filme de detalhes. Detalhes que começam logo aquando do seu primeiro ‘frame’, naquele momento em que a câmara imóvel fixa uma grelha de ferro de um qualquer respirador de passeio, para logo começar a subir e dar-nos uma perspectiva da rua e do frenesim dos seus transeuntes, colando-nos na peugada de um homem de gabardine e chapéu, que entra num bar de hotel para depois fixar o olhar nas costas de uma mulher sentada na sala de jantar, ‘tête-à-tête’ com outra. A câmara fixa-se nos olhares cúmplices entre Carol e Therese: detalhe que nos transmite imediatamente o mote do filme. A partir daí, a história e a encenação só podiam desenrolar-se e acabar como acabaram.

E se as imagens são superlativas e os detalhes não se esquecem, não menos superlativas e inesquecíveis estão Cate Blanchett (e alguma vez o não está?), no papel da adulta e sofisticada Carol, e Rooney Mara (uma actriz de quem apenas nos lembrávamos no papel da heroína da versão americana de “Os Homens que Odeiam as Mulheres” – premonitório?), no de Therese, a imberbe e simples empregada de uma secção de brinquedos de um grande armazém.

É pouco, um filme bonito de ver e ouvir? Talvez. Outras vezes será mais do que suficiente, é o caso.

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