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PEDRO JACOB MORAIS

  • Título português: Dheepan
  • Título original: “Dheepan”
  • Realização: Jacques Audiard
  • Elenco: Jesuthasan Antonythasan, Kalieaswari Srinivasan, Claudine Vinasithamby
  • França, 2015, 115 min

Multiculturalismo?

Abre-se a tela em ‘magnum opus’, uma pilha de corpos em chamas, pira fúnebre, acto de despedida do Tigre do Tamil que depôs as armas. O campo de refugiados abre-se à constituição de uma família de estranhos, à formação de um bando, ao abandono. Um guerrilheiro, uma órfã e uma mulher sem filhos. Do Sri Lanka para os subúrbios de Paris, do campo para a pradaria.

A tela de breu que dá o mote a “Dheepan”, obra de Audiard galardoada em Cannes com a Palma de Ouro, desvela um filme singular. O breu entrecortado com luzes de fantasia, adereços de uma noite sem fim, viagem, bagatelas para um combate. O Tigre de Tamil agora é um vendedor, arquetipicamente anónimo, e a família do faz-de-conta espera-o em casa.

Da venda de pechisbeque para um bairro suburbano, o Tigre transmuta-se em zelador de um bloco residencial abandonado ao tráfico, numa dessas zonas de sombra em que a polícia não entra. “Abandonai toda a esperança, vós que entrais”, que, neste apeadeiro, o Estado converteu-se em verbo de encher. A multiculturalidade mais não é do que uma farsa quando se verte num amontoado de corpos esquecidos, quando se converte em objecto asséptico de trabalhos académicos.

Audiard esmaga as promessas europeias, ensaia o desconforto. Neste bairro tudo corre mal, porque foi projectado para que tudo corresse mal. O Estado abandonou aquela gente à sua sorte entre chavões de integração e trípticos de liberdade, igualdade e fraternidade. O realismo da imagem adquire os matizes artísticos de que Audiard já havia dado provas. Subitamente volvamos ao carro de “Um Profeta”, segundos antes do embate, suspensos naquele aviso premonitório. Para Dheepan, o tigre travestido de zelador de condomínio, a prisão surge mais ampla, delirante e febril nos cânticos guerreiros que repristinam o passado.

E quando a vertigem da guerra regressa, a ausência de Estado propicia a barbárie. Tal como em “Um Profeta” e em “Ferrugem e Osso”, o cineasta filma com raro talento as cenas de acção, longe da violência descomprometida e viciosa de Hollywood. Em “Dheepan” cada cena possui um peso cerimonial, na longa jornada em direcção à terra prometida que fica além do Canal da Mancha – ainda que o “el dorado” inglês tenha muito que se lhe diga.

As interpretações são competentes e seguras, o bairro adquire uma plasticidade que nos transporta para o centro da acção e a banda sonora, não só resulta de forma muito eficaz, como realça o lirismo ínsito nos jogos de luz e de sombra de Audiard.

Nesta Europa de folclores concatenados, vive um Tigre com orelhas luminosas…

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