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PEDRO MORAIS

  • Título português: Janis: Little Girl Blue
  • Título original: “Janis: Little Girl Blue”
  • Realização: Amy Berg
  • USA, 2015, 103 min.
  • Estreia: 5 de Maio de 2016

Janis Joplin representa na perfeição os sonhos e desencantos daquela década de sessenta americana que poucos recordam. Os registos sonoros prestam fiel testemunho de uma idade dourada que se furta a existir. Quem recorda Janis? Quem recorda a “Work me Lord” de Woodstock cantada sob um ascendente de heroína, signo que lhe foi reverencial e, por fim, fatal? Quem recorda a “Ball and Chain” no festival de Monterey? Essa “Ball and Chain” que marca a cadência que unia e as cadeias que prendiam uma geração inteira.

A voz falha naquele delirante refrão e Janis apresentava-se como era: frágil e sem subterfúgios. Era uma vez um tempo que desconhecia o aparato cénico, a promoção exponencialmente apartada do talento artístico, as aulas de canto laboratorialmente afinadas, as historietas de vida cuidadosamente ensaiadas, os ídolos de pés de barro, a infra-estrutura industrial, a fraude.

Naquele tempo Janis cantava livre na fronteira entre os “blues” (a sua ‘alma mater’), o “rock” e a “pop”. Conduzia um poderoso séquito que julgava poder viver para sempre o Verão da Califórnia. Ainda não conheciam os abusos do “summer of love” em São Francisco, os obscuros planos de Charles Mason e as mortes que funestamente encerrariam a década. Nos anos que a realizadora Amy Berg decidiu documentar, o sonho ainda movia multidões e as fragilidades sociológicas que pressagiavam a vigília futura permaneciam ocultas. Janis cantava a “Ball and Chain” no festival de Monterey, demonstrava a graça e o talento da juventude, a música feita artesanato a opor-se à música liquefeita em objeto de consumo.

“Janis: Little Girl Blue” apresenta uma estrutura tipicamente documental. Possui um encadeamento cronológico, recorre a entrevistas e a uma extensa recolha de material que ajuda a densificar a figura da jovem texana e a traçar a radiografia daqueles curiosos anos. Somos presenteados com imagens resgatadas do baú da memória, desenhos, cadernos, notas de adolescência. Amy Berg escolhe dar particular relevo às idiossincrasias, aos desgostos amorosos, às desilusões da artista. Uma nota negativa para as “celebridades” seleccionadas para proferir algumas palavras de homenagem durante os créditos finais. A escolha da cantora Pink revela, mais do que uma flagrante ofensa ao legado de Janis, um extremo mau gosto.

Este documentário vale por tentar resgatar uma figura que, estranhamente, tem vindo a cair no esquecimento, por nos colocar diante de um talento em bruto, incontrolável. Um talento puro e honesto, desvelado num palco que era púlpito, que não era um cenário, um escondedouro dos maquinismos que toldam as vedetas da tardo-modernidade.

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