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PEDRO JACOB MORAIS

  • Título português: Money Monster
  • Título original: “Money Monster”
  • Realização: Jodie Foster
  • Elenco: George Clooney, Julia Roberts, Jack O’Connell
  • USA, 2016, 98 min

O “star system” de Hollywood não cessa de nos brindar com monstruosidades de antologia. Longe fica aquele “dia de cão”, pleno de uma jovialidade há muito arredada da indústria cinematográfica americana, em que Al Pacino, num delírio de suores frios e vida a monte, dispensava os maniqueísmos tipificados pelo género e entrava no banco para um assalto rapidamente feito sequestro.

Refém do amontoado urbano e respectivas neurastenias de betão, num jogo de afinidades com o espectador e respectivos recalcamentos delicadamente delineados. O trabalho de câmara, as prestações dos actores, a tensão dramática não mais se repetiria. Aquele Al Pacino imenso, refractário à análise superficial, ficaria para sempre gravado a cinzel na parede da história do cinema. Aquele Al Pacino imenso não mais surgiria no eterno pastiche da indústria. “Dog Day Afternoon”, de Sindney Lumet, permanece como um objecto de culto, pioneiro, mil vezes copiado, irrepetível e, até à data, insuperável.

“Money Monster” mais não é do que um fraco símile do sequestrador atormentado, injustiçado e com bom coração. Um símile desprovido de profundidade que falha estrondosamente. As prestações dos actores são sofríveis, com destaque para George Clooney, que parece ter construído a sua carreira em torno de efabulações e simulacros. Julia Roberts, ainda que se apresente com alguma dignidade, não consegue sustentar a personagem estafada da directora de conteúdos televisivos exausta de assistir às tropelias de um Clooney sempre caricatural. Jack O’Connell surge mais seguro na personagem de Kyle Budwell, um desgraçado apanhado sem pé pelas flutuações bolsistas e que decide ajustar contas com o apresentador palerma que se dedica a aconselhar diariamente a América sobre investimentos na bolsa. Note-se que mais seguro não equivale a mais competente, numa prestação que remete para Tom Hardy. Mas Kyle Budwell não é Tom Hardy.

Quanto à inverosimilhança da história de fundo, nem uma palavra. Centremos a atenção na fragilidade da construção do argumento, na banda sonora risível e nas peripécias francamente previsíveis. Jodie Foster não se mostra hábil na realização, o que não é, em boa verdade, uma surpresa. Nenhum dos seus trabalhos anteriores, enquanto realizadora, augurava um futuro brilhante.

A crítica à especulação bolsista ínsita na película e enformada pelos mecanismos de “high frequency trading” rapidamente se esfuma e dissipa qualquer pretensão anti-sistema que lhe tentemos assacar. A especulação bolsista não falha pela enfermidade que a enraíza, falha devido a um vilão engravatado que quer comprar uma mina na África do Sul, negoceia com piratas informáticos e é redondamente malvado. O sonho americano não é beliscado. O consumo exacerbado em delírio de bacante continua dentro de momentos.

Jodie Foster não é Sidney Lumet e este não é “Um Dia de Cão”…

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