Naqueles dias de chumbo

Naqueles dias de chumbo

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PEDRO JACOB MORAIS

  • Título português: Taxi Driver
  • Título original: “Taxi Driver”
  • Realização: Martin Scorsese
  • Elenco: Robert De Niro, Jodie Foster, Cybill Shepherd, Harvey Keitel

Há duas semanas, o cinema Rivoli transmitiu a versão restaurada do imprescindível “Taxi Driver”. A sala estava cheia de jovens. Muitos deles viam o filme pela primeira vez, tinham o incomensurável gosto de o ver pela primeira vez na grande tela. Tinham a oportunidade de contactar pela primeira vez com este estranho objecto de Scorsese, com esta estranha personagem de De Niro, com aquela cidade de Nova Iorque sitiada sob o peso dos tempos, dias de chumbo.

O “summer of love” pertencia ao passado, juntamente com os sonhos daquela juventude em abandonada peregrinação à Califórnia. Os ídolos sucumbiram ao peso da década de 60, ao fecho dos anos de delírio sem fim. O Vietnam deu estranhos frutos. Quando a crise do petróleo de 73 assolou aquela gente, já tudo tinha um certo ar de fim de festa.

“Taxi Driver” surge no centro da tempestade, escondedouro dos descontentamentos da juventude americana arquetipicamente consubstanciados na personagem de De Niro, jovem regressado da guerra, incapaz de dormir e que percorre a noite, a grande noite novaiorquina no seu táxi. Sem destino, sem ânimo. Casas devolutas, drogados, marginais, excluídos. E uma chuva que tarda, uma chuva que tudo limpe. A cidade que nunca dorme, o taxista que nunca dorme, as suas ruas, avenidas, vielas, sarjetas. Uma chuva que limpe a cidade e que limpe a vida de Travis. Porque este homem é um pobre diabo, institucionalizado pela selva vietnamita, incapaz de se relacionar com o outro, atabalhoado, enfim, filho do seu tempo, verniz estalado do sonho americano.

A cidada apresenta-se diversa da metrópole de “Cavaleiros do Asfalto” e de “Nova Iorque Fora de Horas” e, no entanto, transmite de modo igualmente eficaz a juventude americana, a noite americana. Scorsese não voltaria a filmar com semelhante jovialidade e dinamismo. De Niro fez história. Em momento algum sabemos o que esperar de Travis. Imprevisível, louco, em fúria. Uma fúria por canalizar, difusa, disforme. Um candidato presidencial que aparece como um corpo estranho. Uma sede de campanha imensa. “We are the people”. Uma pistola para matar elefantes, medicamentos, paranóia. Jodie Foster estreia-se no cinema, e que estreia. E não esqueçamos Harvey Keitel, outro talento.

O pequeno auditório do Rivoli estava cheio de jovens. Parte deles via “Taxi Driver” pela primeira vez. Alguns saíram da sessão surpreendidos e rendidos ao filme. Outros não o compreenderam, a julgar pelas gargalhadas nos momentos de maior intensidade dramática. A obra Scorsese ergue-se incólume, rasga aqueles dias de chumbo e projecta-se nos nossos…

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