Um mundo prestes a acabar

PAULO FERRERO

Alice Rohrwacher é uma toscana de pai alemão, que resolveu filmar uma Itália nos antípodas da retratada com sofisticação no portentoso e oscarizado filme de Sorrentino (“A Grande Beleza”), mas igualmente decadente e sem futuro aparente, fazendo-nos imergir, nesta sua segunda longa-metragem, num “País das Maravilhas” (recado evidente para o universo de Carroll) dos anos 80-90, num final de Verão em registo ‘flower power’.

A história resume-se ao seguinte: um pai tirano (alemão, claro), faz o que quer da mulher, das quatro filhas e de uma outra alemã, incutindo-lhes no espírito que devem abdicar da cidade e abraçar o campo, como apicultores, não de abelhas mas de vespas. O problema é que, se as condições de higiene e salubridade exigíveis a uma empresa assim (já nesse tempo!) são um obstáculo de peso para a sobrevivência da empreitada, já a tirania obsessiva do pai (que teima em dizer “as minhas filhas são livres”) corta cerce toda e qualquer veleidade de descoberta e de sonho das filhas, sobretudo da mais crescida, a adolescente Gelsomina (aceno a Fellini), a verdadeira chefe de família.

Que Alice tem jeito, isso é inegável, e qualquer dia há-de nos presentear com uma maravilha, mas ainda não foi desta. O “País das Maravilhas” deslumbra aqui e acolá, muito por força também da excelente fotografia de Helene Louvart – na ida de barco rumo à ilha para o concurso, durante todo o concurso (o momento mais felliniano do filme), nas aparições (dignas do melhor surrealismo de Buñuel) dos caçadores rompendo a penumbra dando de caras com uma casa fantasmagórica (“que esteve sempre ali”) e do camelo (– Ti piaceva un cammello? – sì, da piccola), ou, claro, no final do filme, iniciático e enigmático, propício a mil e uma interpretações, mas são momentos, porque no mais, infelizmente, dá relativamente pouco. Esperemos que fique para a próxima, de preferência também com a outra Rohrwacher, a mana Alba?

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