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PEDRO MORAIS

  • Título original: “The 33”
  • Realização: Patricia Riggen
  • Elenco: Antonio Banderas, Rodrigo Santoro, Juliette Binoche
  • Chile, E.U.A., 2015, 127 min
  • Estreia: 14 de Abril de 2016

Tempos houve em que Hollywood reflectiu dobrada sobre si própria. Tempos houve em que a feira das vaidades suspendeu o olhar perante o reflexo deformado do espelho. Nesses tempos de bruma e esperança, Elizabeth Taylor surgia desfigurada a discutir com Richard Burton e nós, reféns do pesadelo, lutávamos pela vigília, para não ver a chaga aberta na carne da indústria.

O realismo simultaneamente desassombrado e assombroso pertence ao passado. Hoje impera o logro, o simulacro, a substituição da realidade por um sucedâneo insustentável, qual prótese. Hoje as histórias perderam profundidade e verve. As personagens envergam máscaras ocas, actuam maquinalmente. Hollywood surge feita uma gigantesca ‘machina machinarum’.

No filme que hoje nos ocupa, o artificialismo eleva-se ao extremo. “Os 33” pretende narrar a história de sobrevivência e superação dos mineiros chilenos que permaneceram soterrados durante sessenta e nove dias. Produção conjunta entre o Chile e os E.U.A., a ‘pax americana’ não tarda a impor-se através da deturpação da poderosa vivência dos mineiros.

Uma primeira nota para a escolha do Inglês ou, melhor, do Inglês com um ligeiro sotaque latino como língua desta película. Temos, então, uma história verídica, passada no Chile, com gente de expressão castelhana – nas suas múltiplas variantes – que nos é apresentada em inglês. O tom anedótico ou de ofensa gratuita não poderia ser mais evidente. Representa a submissão do Chile aos interesses comerciais americanos. A grosseria recrudesce na escolha de actores cuja língua-mãe radica no latim, como sejam Antonio Banderas, Rodrigo Santoro ou Juliette Binoche.

A selecção dos actores constitui outro ponto problemático. Abissalmente distinto dos reais intervenientes, o elenco de “Os 33” reflecte a aversão das produções de massa à realidade. Os rostos mais humanos, sujos e feios dos verdadeiros mineiros chilenos não servem aos interesses dos grandes estúdios. As suas palavras ficam curtas nas mangas, os seus corpos são avessos às angulares e, consequentemente, a sua história tem de ser matizada, condensada, processada. Urge que sejam substituídos por espécimes mais belos, tonificados e sem qualquer densidade psicológica.

Desprovidos de ânimo, os mineiros surgem como fracos de espírito permeáveis aos discursos motivacionais de Antonio Banderas. A câmara revela-se refractária ao plano aproximado, evita os mineiros, serve-se de subterfúgios, delírios mal executados, castelos de areia. E Rodrigo Santoro? O jovem ministro que manifesta a sua “consciência social” ao trocar o impecável fato por um igualmente impecável pólo vermelho e que revela uma falta de profundidade dramática diga de brado, é a cereja no topo do bolo.

Naqueles Idos de Março, Elizabeth Taylor não tinha medo de Virginia Woolf, não tinha medo dos números e estilhaçava Hollywood contra a parede da pequena residência do ‘campus’ universitário…

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