ODIABO300x100

PAULO FERRERO

  • Título original: The Revenant
  • Realização: Alejandro G. Iñárritu
  • Com: Tom Hardy, Leonardo DiCaprio, Domhnall Gleeson, Will Poulter, Forrest Goodluck
  • EUA, 2015, 156 min.
  • Estreia: 21 de Janeiro de 2016.

Hugh Glass é a personagem feroz central de “O Renascido”, um mamífero primata, carnívoro, bípede, com capacidade de fala, que tem índole ou natureza de fera, é impetuoso e violento (in dicionário), e que uma vez separado para sempre do seu ente mais querido regressa dos mortos para a vida apenas com um fito: a vingança.

Leonardo di Caprio incarna bestialmente (Óscar imperdível, por certo) esse ser implacável e sanguinário que é Glass revertido, puxando pelo pior que há nele para resistir à mãe Natureza e às feras que o povoam, desde logo e acima de tudo à malvadez, ganância, traição e cobardia de um outro homem, este outro também representado de forma portentosa por Tom Hardy, esse excelente actor inglês, à conquista do Oeste.

É verdade que a resistência de um ser humano à adversidade dos Elementos, perdido na imensidão da paisagem da América do Norte profunda, já tinha sido posta à prova em filmes superlativos como “Jeremiah Johnson” (1972), de Pollack, ou “Man in the Wilderness” (1971), do sempre olvidado Richard C. Sarafian, sendo que neste último, inclusivamente, a história tem bastantes semelhanças com a de “O Renascido”, mas convenhamos: o filme de Alejandro González Iñárritu é mesmo de outra galáxia, uma autêntica expedição de instintos e asfixiada de verde, à Herzog, fustigada por vento e neve, aquela por que passa o espectador:

Entranhamo-nos na lama e na água gelada do Missouri (no argumento), sobrevivemos a uma mãe-ursa furiosa (e que sequência notável essa é!) e às setas dos índios, em batalhas impróprias para “todas as idades”. E à carnificina a mais violenta, em que vale tudo, mesmo arrancar olhos. Deixamo-nos enterrar vivos quando Glass o é, temos chagas que não cicatrizam, comemos as entranhas de um bisonte acabado de morrer, arrancamos um pedaço de peixe pescado com as mãos e metemo-nos na carcaça de um cavalo para resistirmos à intempérie. Fotografia soberba, a de Emmanuel Lubezki, evidentemente, tal como soberbas são a montagem, a caracterização e a banda sonora de “O Renascido”.

SIMILAR ARTICLES