Tão-só um almoço de família, tão-só o fim do mundo

Tão-só um almoço de família, tão-só o fim do mundo

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PEDRO JACOB MORAIS

  • Título português: Tão-só o Fim do Mundo
  • Título original: “Juste la Fin du Monde”
  • Realização: Xavier Dolan
  • Elenco: Gaspard Ulliel, Nathalie Baye, Vincent Cassel, Marion Cotillard, Léa Seydoux
  • Canadá, França, 2016, 97 min

E se um mero almoço de família abrisse a porta à guerra do fim do mundo? E se os talheres, os pratos, os copos, as entradas e o prato principal marcassem indelevelmente a toada da degradação das relações intersubjectivas? Palavras por dizer, explicações guardadas, doze anos de ausência. Um aeroporto, um táxi, paisagem, pessoas que passam à passagem do carro, pessoas que ficam à passagem do carro. E uma casa rodeada por árvores, de porta aberta ao romeiro que voltou aos seus. Os que ficaram não ficaram iguais. Mudou-os a ausência e o que ficou por dizer. Ficou tanto por dizer.

Em “Tão-só o Fim do Mundo” Xavier Dolan abre o espaço cénico à incompreensão mútua, à exiguidade dos espaços fechados. Ao tomar por base uma peça de Jean-Luc Lagarce, Dolan permite-se a certos exageros. Sobredimensiona a carga dramática dos diálogos e estica até ao limite da ruptura as prestações dos actores. Todos são tumultuosos, exagerados e loucos. Todos procuram o conflito, o nó cego em que a elevação do tom de voz marca o vazio comunicacional, em que o discurso se abandona ao ruído.

Louis vai morrer. Regressa de uma ausência de doze anos para dizer aos que ficaram que vai morrer. Chega de manhã, cumprimenta-os, senta-se, discorre trivialidades, cala-se, ouve, recorda o quarto, o jardim, fuma um cigarro, discute, evita explicar-se. Nada diz. Ninguém se entende naquela casa. A irmã tatuada, a mãe que esconde o que sente, o irmão violento e a cunhada que não se sabe expressar mas entende tudo.

Dolan é um talento. Domina na perfeição os artifícios cénicos, os espaços e as distâncias. Revela um cuidado imenso na fotografia, em particular na iluminação. Utiliza a banda sonora, por vezes com recursos inusitados, com grande delicadeza. Acima de tudo sabe dirigir os actores. E que actores foi escolher para este filme. Gaspard Ulliel, Vincent Cassel, Marion Cotillard, Léa Seydoux e Nathalie Baye. É certo que repisa a cada filme as mesmas questões. Os recalcamentos familiares, as inseguranças, a brutalidade e a questão das minorias. Mas fá-lo com uma certa arte. Veremos o que o futuro lhe reserva.

Naquela casa rodeada por árvores há um relógio de cuco que liberta pássaros. Libertos voam soltos na vertigem do confinamento. Morrem em voo picado sobre o tapete da entrada. Abre-se a porta…

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