Há erva debaixo da calçada

PAULO FERRERO

“Vício Intrínseco” marca o regresso de Paul Thomas Anderson às comédias mais ou menos psicadélicas a que nos habituara (bem? mal?) durante a década de 90, de que os seríssimos e profundos “Haverá Sangue” (2007) e “O Mentor” (2012) terão servido de reticências, sob a forma de dois grandes apainelados sobre a natureza da América; sublime, o primeiro, o segundo, já nem por isso.

Desta vez, PTA (que ainda é novinho) foi beber inspiração ao escritor Thomas Pynchon para esta comédia policial em registo ‘rave’, ‘nonsense’, ‘cartoon’ e de ‘overacting’, de que certo ‘pavé’, levantado pelas barricadas da Paris de Maio de 68, é ‘leitmotiv’ (e perdoem-me esta sobredose de aspas). Não se deu mal.

O filme é uma paranoia alucinada tão grande e tão complexa à volta dos anos 70 americanos, que até se lhe perdoa ter provado, por a+b, não ter havido praia/areia nenhuma por debaixo da calçada parisiense, apenas erva. Como se lhe perdoa a duração excessiva, e a ressaca que certamente provocará na manhã seguinte à generalidade dos espectadores, que o tenham digerido a custo.

O fabuloso elenco de “Vício Intrínseco”, contudo, ajuda a que a festa raramente descambe (apenas a personagem de Reese Witherspoon, enquanto procuradora, parece estar a mais…), e no final ninguém já achará estranho aqueles diálogos ou aquele frenesim, e que por ali tenham aparecido personagens baptizadas de Mickey ou Bambi, ou que Josh Brolin (impagável, como sempre!) goste de massacrar a personagem central do filme com o inevitável “what’s up, doc?”, tal a proliferação de aventuras, desventuras e ‘gags’ hilariantes em que aquela se mete durante 148 minutos.

Pessoalmente gostava que PTA tirasse da cartola um novo “Haverá Sangue”.

  • Título original: Inherent Vice
  • Realização: Paul Thomas Anderson
  • Com: Joaquin Phoenix, Josh Brolin, Owen Wilson
  • EUA, 2015, 148 min.
  • Estreia: 19 de Fevereiro de 2015.

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