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PEDRO JACOB MORAIS

  • Título português: Viver à Margem
  • Título original: “Time Out of Mind”
  • Realização: Oren Moverman
  • Elenco: Richard Gere, Ben Vereen, Jena Malone
  • USA, 120 min, 2015

Oren Moverman assina uma obra segura e honesta, que passa ao largo dos holofotes mediáticos. Premiado em Toronto, “Viver à Margem” conta-nos a história de George, um sem-abrigo nas ruas de Nova Iorque. Hipotecou o futuro nos tratamentos do cancro da mulher e o cancro venceu, perdeu o emprego, refugiou-se no álcool, afastou a filha, perdeu a casa. Agora vive a invernia nova-iorquina, a chuva, o vento e a companhia forçada de outras almas penadas com vivências distintas, comuns no desfecho. A temperatura, as ruas inóspitas aos desapossados, a comida, a cerveja, o whisky, o abrigo, as regras, as filas, as esperas, as filhas de espera. O desfile de quem sorri a perda da dignidade não tem fim.

Richard Gere brinda-nos com uma interpretação tocante e franca. Parco nas palavras, guia-nos numa jornada, em certos aspectos, demasiado voyeurista. Não fala, não come, não dorme, por vezes bebe. Tenta recuperar forças para encarar a filha. Tenta recuperar a identidade, a certidão de nascimento, o apelido, em contrapé com a torrente burocrática. Qual seria o seu emprego? Sabe-se lá! Em boa verdade, isso pouco importa. O emprego sumiu entre as frestas da vida, a casa devolveu-o à rua e a cidade permanece imóvel, bloco em bruto, a Manhattan que o reconduz ciclicamente ao bar onde a filha trabalha, que lhe afiança o retorno e, subitamente, lhe cerra a porta. Alguns edifícios dessa cidade são inexpugnáveis, tal o passado de George.

Uma nota para Ben Vereen no papel de Dixon, o enérgico sem-abrigo que decide acompanhar George, entre a narração de feitos passados em serões jazz que talvez não passem de efabulações e problemas com drogas, permite ao espectador recuperar o fôlego da sucessão de misérias apresentadas na tela. Moverman serve-se de um curioso artifício cénico que quadra na perfeição o distanciamento do olhar que os sem-abrigo convocam. Opta por filmar grande parte das cenas do lado de fora dos edifícios. Desta forma, o espectador observa George através de janelas, portas, vitrinas. A sua voz mistura-se e, por vezes, dissipa-se no ruído ambiente, perde-se na cidade sem fim.

“Viver à Margem” traça detalhadamente o esboço dos excluídos e revela à contraluz as cicatrizes do sonho americano. A fragilidade do sistema de saúde, o preço dos seguros, a impotência da segurança social, a indiferença perante o outro.

Estes já não são os tempos de “Na Penúria em Paris e Londres” de Orwell…

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