“Eu e Tu”, de Martin Buber

“Eu e Tu”, de Martin Buber

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JOÃO VAZ

E eis um dos clássicos da filosofia do século XX. Eu e Tu, o Outro, o Mesmo. Um filão que continuaria e seria manifesto em Emmanuel Lévinas, em Jacques Derrida, na Filosofia, ou em Paul Celan, na poesia.

De resto, este já fazia eco da sombra de Martin Buber no seu “Elogio da Distância”: “Mais negro no negro, estou mais nu/Só quando sou falso sou fiel/Sou eu quando sou tu” (tradução de João Barrento, Cotovia, 1993).

Aqui consolidar-se-ia a ética da responsabilidade, tão do agrado de Lévinas, a necessidade de acolhimento do alheio, sobre a qual escreveu Derrida em “O Outro Cabo”.

Enquanto o existencialismo se preocupava com o sol, acabando por dar origem, tardiamente, a “Killing an Arab”, dos The Cure, o personalismo e o seu pós, porque todas as coisas têm um pós, cimentava a necessidade do tu para a certeza do eu.

Descobria a urgência do espectador para a certeza do autor. Não fez imediatamente fruto – tivesse-o conseguido e talvez os resultados do século XX fossem outros –, mas terá alcançado um certo efeito, ainda que só mais tarde, pois os dias eram então mais propícios à fenomenologia, alicerçada na grandeza husserliana, sobretudo. É claro que Martin Buber não se insere no personalismo cristão.

A inserir-se em algo será na boa e velha tradição judaica do pensar, na boa e velha tradição judaica da interrogação, da confrontação com o divino, se necessário. O reconhecimento da palavra, da leitura, do chamamento de quem nos convoca.

Porque não podemos chamar-nos a nós próprios, mas somos sempre nomeados por alguém. De onde deriva a consciência da nossa identidade. Porque o próprio Deus nomeou uma criação e, ao fazê-lo, elevou a um patamar supremo a pessoa humana, que tão desgraçadamente soube responder a tal privilégio.

Apesar de tudo, vai-se redimindo em momentos particulares como este, em que um dos seus pôs no papel essa lembrança.

 

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