À Cabeceira do Rei

À Cabeceira do Rei

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As doenças dos nossos reis e o seu tratamento

JOÃO VAZ

Uma das coisas que, volta e meia, me causa inquietação prende-se com o facto de D. Afonso Henriques nunca ter lavado os dentes.

É verdade que o homem de Neandertal já os palitava, numa proto-higiene oral muito digna de louvor, mas quando reflectimos sobre o fraco arsenal de que dispunham os poderosos da terra para combater as maleitas da idade e outras, ficamos satisfeitos por nos encontrarmos nesta época em que, mau grado os atrasos nas urgências, nos encontramos perante um leque de possibilidades que nunca passaram pela cabeça dos nossos ancestrais.

Vivemos, provavelmente, na melhor altura para se estar vivo. Sim, há quebra de valores morais, o século XIX era encantador e assistiu a transformações notáveis, a Idade Média era muito interessante.

Mas podermo-nos sentar a ler um livro com um foco ao lado, sem termos necessidade de dar cabo da vista é caso para dar graças a Deus. Tal como poder dispor das maravilhas da medicina moderna.

E só devemos lamentar os que se entregam a charlatanices mais ou menos patas que por aí proliferam. Já se sabe, quando se deixa de crer em Deus acaba por se crer em qualquer coisa, seja no campo do transcendente ou do imanente.

Posto isto, lamentemos e admiremos aquilo que lemos: o facto de os nossos reis e rainhas não terem podido dispor do que nós dispomos, embora se assim sucedesse a História não tivesse decorrido como decorreu.

Admiremos o seu estoicismo, a sua resistência, a sua capacidade de enfrentar as adversidades, tivessem eles de se encontrar com o Criador com mais de setenta anos, como o Fundador, ou com tão curtos quarenta como o Príncipe Perfeito.

Doença, senilidade, veneno, purgas, sanguessugas, brometos, mercúrio e outros elementos são também actores nesta sucessão de curtas-metragens que nos convidam a assistir a uma área da História que vai cativando cada vez mais público. Desta vez, felizmente, de forma séria e sóbria.

Há por aí demasiado mau gosto quando se tenta abordar a morte dos reis, as amantes dos reis, as crueldades dos reis, as fobias dos reis, os desejos dos reis e tantas outros aspectos mais ou menos íntimos que actualmente parecem ser filão inesgotável para investigadores mais ou menos probos.

Aqui, já se disse, está-se perante um trabalho rigoroso, informado, capaz. Aprende-se com este “À Cabeceira do Rei”, de Paulo Drumond Braga.

E retira-se prazer. E quando assim é, já se sabe, quer-me parecer que os objectivos foram alcançados.

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