Diário da Guerra aos Porcos

Diário da Guerra aos Porcos

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A guerra aos velhos

JOÃO VAZ 

Eis a reedição do “Diário da Guerra aos Porcos”, de Adolfo Bioy Casares, originalmente lançado pela Cavalo de Ferro em 2006. Neste tempo em que se discute a sustentabilidade do Estado social, aqui está um contributo mais original do que as teses da dra. Raquel Varela ou outros gurus da nova esquerda lusitana. Génio com originalidade, encontra-se aqui, neste que talvez seja o mais conseguido romance de Casares, esse enorme nome da literatura argentina, cujo centenário se comemorou no ano passado.

Na sua Buenos Aires, em data incerta, os jovens decidem que os velhos estão a mais, o que representa um grande desconforto para estes, entre os quais se encontram Ignacio Vidal e amigos, rapazes de outros tempos que, naturalmente, não se consideram entradotes na idade e pensam estar incólumes à vaga de violência que assolará amigos e conhecidos.

É de um refinamento notável o humor aqui vertido por Casares, com as patéticas tentativas dos intervenientes deste grupo em parecerem jovens e que vão do simples pintar dos cabelos brancos a um esforçado convívio com as gerações dos novos tempos, esses perseguidores entre os quais podemos ver filhos e conhecidos dos que passaram a barreira dos cinquenta.

Os velhos têm sido um problema ao longo da História e fonte de inspiração para a literatura, nomeadamente a sua tentativa de passar ao lado do tempo. Mas poucas obras conseguiram o seu objectivo de forma tão notável como esta. Assim de repente, lembro-me de um textozinho de Octave Mirbeau, “As Bocas Inúteis”, história de um homem velho que deixa de ser produtivo e é colocado de parte pela própria mulher, aceitando estoicamente o seu destino. No cinema temos o excelente “Soilent Green”, que nos oferece o retrato de uma época em que o sobrepovoamento leva à eliminação de muitos, pouco produtivos.

É nesta linha que entronca “Diário da Guerra aos Porcos”, obra de uma actualidade premonitória, num mundo cada vez mais entregue à ditadura da produtividade e em que o cenário já descrito talvez tenha estado mais longe, evidentemente travestido de humanitarismo – eliminam-se os inúteis por razões piedosas, obviamente, como vemos no caso da eutanásia ou do aborto. É tudo uma questão de custos. Bioy Casares levantou aqui o problema, de forma naturalmente irónica, tamanho era o talento em causa.

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