Não-Humano

Não-Humano

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Descida a um Japão imaginado

PAULO FERRENO

Este chinês é completamente alucinado. “Chinês não, japonês”, como diria o lendário personagem da série “Duarte e Companhia”. Adiante. Osamu Dazai (pseudónimo de Tsushima Shuji), nasceu em 1909 e suicidou-se em 1948, depois de uma vida de álcool e drogas e esquerdismo, três flagelos do século XX. Pelo meio escreveu umas coisas, entre as quais o pequeno romance “Não-Humano”, publicado entre nós pela Cavalo de Ferro, o último trabalho que produziu e que é um tratado de misantropia e abandono.

Yozo, o protagonista, numa interpretação fácil e imediata, é um retrato de Osamu. Desde pequeno é um ser à margem, um extraterrestre lançado num mundo de humanos que não reconhece e cuja linguagem lhe é inacessível. Aparentemente, consegue ajustar-se aos comportamentos da circunstância onde cai – pelo menos durante a infância –, mas a partir de certa altura tudo se desmorona. O que sobra é a vagabundagem, o “vadiar a horas mortas”, como diriam outrora os conimbricenses M’as Foice, que não conheceram Osamu, mas retrataram outras desgraças e perdas, embora de modo mais humorístico. Perante este retrato, perante estas linhas que nos dão a conhecer Yozo e o seu martírio, as dúvidas existenciais das figuras sartrianas, camusianas e afins são irrelevantes e a vida delas é um mar de felicidade. Não sei se a alienação de Yozo é a alienação marxista, do homem completamente à margem de tudo, excepto do nada – imagem banal – mas anda muito próxima da do protagonista de “Fome”, de Knut Hamsun. Com a diferença de que um ainda acalenta, pelo menos, vestígios de sonhos ou projectos, e o outro abandonou toda a esperança, mergulhado há muito na infâmia.

A sua própria condição de caricaturista/desenhador de bandas desenhadas de cariz mais ou menos pornográfico apenas cimenta essa ideia do mergulho na desgraça, sendo que, para mais, o trabalho que mantém serve apenas para alimentar o vício da bebida. Quando não há, subsiste da caridade de um ou outro amigo e das mulheres com quem vai vivendo. Mas tudo passa, diz ele. E é capaz de ser verdade. Diz, já não sei quem, na contracapa do livro e a propósito da crítica ao mesmo, que o Japão nos é um lugar estranho. Errado. O que aqui está retratado não é aquele país, é uma descida ao fundo que é mais europeia do que japonesa. É demasiado opiácea para ser dali. É mais familiar a certos intelectuais ‘fin de siècle’ que pintaram a sua própria mitologia, a sua própria ficção das terras do Sol Nascente.

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