A Ordem Mundial

A Ordem Mundial

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A nova ordem mundial

JOÃO VAZ

A Paz de Vestefália e as suas consequências são o ponto de partida de “A Ordem Mundial”. De uma Europa Central arrasada por trinta anos de conflito, saiu uma nova ordem internacional que se foi progressivamente estendendo às mais díspares regiões do globo e que acabaria por ser posta em causa alguns séculos mais tarde.

Inicialmente confinada à Europa, a única realidade que interessava, acabaria exportada para o Extremo Oriente por um Japão apostado em ficar com o melhor da modernidade, mas sem se afastar da identidade cultural própria. Depois, faria carreira em África e na Ásia após as descolonizações, feitas em grande parte por líderes educados no Ocidente e familiarizados com as suas produções ideológicas que transplantaram até às suas paragens.

Feliz ou infelizmente, a paz conseguida em 1648 não foi perpétua e os sonhos kantianos demoram a realizar-se. Os grandes conflitos do século XX estilhaçaram equilíbrios arduamente conseguidos e trouxeram para o palco novos actores, entre os quais alguns pouco ou nada previsíveis, como é o caso do Estado Islâmico, alvo da atenção de Henry Kissinger.

A posição dos EUA face a tais actores, emergentes ou consolidados, é um dos pontos de maior interesse deste trabalho. A política externa da cidade sobre a colina é aqui dissecada, assistindo o leitor à progressiva evolução da mesma, desde um isolacionismo proclamado pela doutrina Monroe e seguido de forma mais ou menos intransigente, mesmo quando Theodore Roosevelt fez questão de mostrar a força desta nação abençoada, até ao intervencionismo pós-Segunda Guerra Mundial levado a cabo por praticamente todos os presidentes.

Naturalmente, tal protagonismo conduziu a conflitos inevitáveis com estados igualmente desejosos de ocupar aquele que consideram ser o seu lugar no mundo, daí que encontremos também nestas páginas a história já contada da Guerra Fria, apesar de tudo marcada por uma racionalidade comum aos seus intervenientes, a mesma que falha quando entram em jogo as forças que não se adaptaram ou que não viveram o iluminismo ocidental.

Nesse âmbito, a relação dos norte-americanos com o Irão há-de ser sempre um exemplo a reter, a passagem de um país aliado e com um líder desejoso de modernização a uma república teocrática e assente em categorias distintas da modernidade ocidental e, por isso, aparentemente estranhas a uma liderança ocidental imbuída de pensamento racionalista que seria rejeitado do lado de lá.

Curioso nestas análises de Henry Kissinger, e revelador da perda de importância da Europa, é o espaço concedido ao velho continente. Aparece aqui completamente secundarizado pelo Oriente, nomeadamente pelos colossos chinês e japonês e pelo mundo árabo-islâmico.

Nós, europeus, para nosso mal, somos hoje uma realidade periférica e com um peso cada vez menor no mundo, fruto de sucessivas lideranças incapazes, como ainda se viu recentemente a propósito dos ataques terroristas de Paris. Goste-se ou não, nos anos trinta e quarenta o Ocidente teve Churchill e Roosevelt no combate contra os totalitarismos e hoje temos Obama e Cameron. Seria risível se não fosse dramático.

Nós, europeus, somos hoje uma entidade sem alma e sem memória, onde só vale a magia do capital, seja exterior ou injectado pelo BCE, de forma a produzir milagres e amanhãs que cantam pelas mãos destes socialistas reciclados que, até ao pé do autor desta “Nova Ordem”, não passam de pequenos anões do ponto de vista intelectual.

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  • Nuno Santos

    Henry Kissinger, um personagem muito interessante… e também um criminoso ao mais alto nível responsável por atrocidades contra povos e nações:

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    – Responsabilidade nas guerras do Vietname, Cambodja e Laos;
    – Pré-aprovação em conjunto com Gerald Ford da invasão de Timor-Leste pelos indonésios liderados por Suharto.
    – Intervencionismo a nível global quer por invasões militares directas, quer por apoios indirectos a conflitos.

    Um dos maiores proponentes da guerra, do capitalismo selvagem e da destabilização de regiões e povos.

    Um dos maiores detractores do nacionalismo, da auto-determinação e da independência dos povos e suas economias.

  • umBhalane Sena

    Ataque ao mensageiro, que não à mensagem.
    Mais do mesmo.
    Sempre.