Orpheu e o Modernismo Português

Orpheu e o Modernismo Português

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JOSÉ ALMEIDA

O modernismo português parece viver a sua segunda vida. Ocultado durante décadas devido a inconvenientes e constrangimentos político-filosóficos levantados pelos seus principais interlocutores e protagonistas, o nosso modernismo parece estar hoje a ganhar um novo fulgor. Talvez este seja um sinal do redespertar para o “ethos” português através do reencontro com a nossa tradição.

Fundada em 1915, a revista Orpheu constituiu uma curta mas importante aventura editorial dentro do universo modernista de inícios do século XX. Pensada enquanto projecto luso-brasileiro, esta revista teve como directores Luís de Montalvor, em Portugal, e Ronald de Carvalho, no Brasil, ficando o lugar de editor reservado a António Ferro – essa figura ímpar da cultura portuguesa que viria a tornar-se no inexcedível dinamizador cultural do Estado Novo. Apesar de terem sido publicados apenas dois números daquela revista, tendo o terceiro sido abandonado por questões ligadas à suposta falta de financiamento, Orpheu deixou uma marca indelével na cultura portuguesa. Para a história ficaram também muitos dos nomes que integraram esta publicação como, por exemplo: Fernando Pessoa, Almada Negreiros, Raul Leal, Santa-Rita Pintor, Mário de Sá-Carneiro, Alfredo Guisado, entre outros.

“Orpheu e o Modernismo Português” é o título de uma obra ensaística colectiva, organizada por Paulo Samuel na sequência de um colóquio promovido pela Fundação Eng. António de Almeida a 19 de Março de 2015. Este encontro foi realizado como uma extensão do Congresso Internacional “100 Orpheu”, promovido pelo CLEPUL (Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), permitindo a descentralização das comemorações do primeiro centenário da publicação da revista Orpheu, incluindo desta forma a cidade do Porto.

Este volume reúne uma série de artigos em torno desta revista, bem como da sua influência no contexto do modernismo português e brasileiro. Entre os diversos colaboradores cujo nome perfila no sumário desta obra podemos encontrar Paulo Samuel, Ernesto Rodrigues, Fernando Aguiar-Branco, Arnaldo Saraiva, Isabel Ponce de Leão, Salvato Trigo, Eduardo Paz Barroso, António Apolinário Lourenço, Maria de Fátima Lambert, entre outros.

Conforme observa o organizador deste volume, a natureza das conferências apresentadas nesse colóquio exigia a publicação das mesmas, tanto pela qualidade literária, como pelo importante contributo que aportam aos diversos campos do conhecimento, desde a História, à estética, poesia ou literatura. De resto, a Fundação Eng. António de Almeida tem, ao longo das últimas décadas, revelado uma apurada sensibilidade pelo modo como trata as celebrações das efemérides dos momentos altos da nossa História e cultura. Seja através da organização e promoção de encontros, ou através do seu importante plano editorial – no qual se enquadra a publicação deste livro –, colocando-se assim num lugar cimeiro entre as instituições portuguesas que apoiam e promovem a cultura nacional. De resto, a importante marginália e compilação iconográfica anexa a este volume são de tudo isso uma prova mais do que firmada.

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