“Jihad, the trail of political islam”

“Jihad, the trail of political islam”

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Para a compreensão do islão político

JOÃO VAZ
O recente assassinato (ainda não percebi por que razão os ‘media’ falam sempre em “execução” nestes casos) de James Foley veio acordar algumas consciências para o problema do islão político. Algumas, que não todas.

Desde logo vieram os idiotas úteis, os desonestos e os ignorantes com as declarações costumeiras: que isto não é islão, que a religião da paz não se comporta assim e, no limite, que o Estado Islâmico é criação israelita.

Curiosamente, entre aqueles que agora, tarde e a más horas, despertam para o fenómeno, encontram-se os liberais adoradores do sistema britânico e os defensores da livre circulação de indivíduos.

Quanto a outros, simplesmente não há nada a fazer. Da extrema-esquerda nada se espera, presa a um ódio por tudo o que seja ocidental e democrático, substituindo facilmente os ídolos marxistas pelos islamistas – se pôde suceder no Irão em 1980, porque não aqui?

Da área nacional, idem. Sendo a mais obtusa da Europa, a portuguesa continua a repetir a ladainha de Israel, numa suposta solidariedade com os palestinos, a qual não é mais do que o velho e secular ódio ao judeu, com toda a gasta e patética retórica: o controlo dos ‘media’, da banca e por aí.

Curiosamente nunca ouvimos essa gente lamentar o domínio de empresas, clubes e capitais por parte de potentados do Próximo Oriente.

Enfim, passando a “Jihad – the trail of political islam”, de Gilles Kepel, devo dizer que, como já observou quem se dá ao trabalho de me ler, não tenho por hábito colocar aqui livros em estrangeiro ou com alguns anos de idade.

Abro esta excepção porque se trata de um volume capaz de fazer compreender boa parte do que se joga no Iraque, na Síria e não só. Existem em português diversos trabalhos sobre o fenómeno do islamismo em geral e o islão político em particular, alguns deles de investigadores nacionais. Mas tratam-se de volumes de qualidade muito desigual, que oscilam entre a completa dimitude da sra. Karen Armstrong ou Robert Fisk, às apologias de Israel, que também merece.

Pelo meio há outros ensaios que merecem atenção – nomeadamente os de John Gray (“A al-Qaeda e o significado de ser moderno”) ou de Lawrence Wright (“A Torres do Desassossego”). Existem ainda aqueles livrinhos de Cassandras que há muito nos alertavam para o que estava a suceder, mas que foram olimpicamente ignorados, com aquelas rotuladas de racistas ou islamófobas, evidentemente.

Estou-me a lembrar dos dois volumes da falecida Oriana Fallaci, saídos na Difel há uns anos, ou do excelente “Londonistão”, de Melanie Philips, publicado pela Alêtheia. Este último, sobretudo, deveria ter sido lido por muitos dos que acordaram agora, alguns dos quais acérrimos fãs da cultura britânica, mas que deviam andar distraídos quando iam a Londres comprar livros.

Adiante. Gilles Kepel, para nos centrarmos no que interessa, é um dos grandes especialistas no fenómeno em causa. Infelizmente, em Portugal conta-se apenas um livro da sua autoria traduzido, já em 1992, pela Dom Quixote, e manifestamente desactualizado.

Quanto à obra que aqui apresento, é a tradução para inglês de um trabalho saído originalmente no ano 2000, mas com alguns acrescentos. Apesar de já ter em cima 12 anos, é um excelente guia para quem quiser conhecer as origens do islão político e perceber que, o que há aqui, é de facto islão, interpretado por estudiosos, por gente que dedicou a sua vida a esse projecto.

Não é uma massa analfabeta que interpreta o Alcorão de forma distorcida. São estudiosos que se inserem em tradições bem antigas, algumas remetendo para a Idade Média. Aqui encontramos a história da criação da Irmandade Muçulmana, em 1928, no Egipto, bem como as suas posteriores filiais, da Argélia, em 1931, a Gaza, em 1987, passando pelo Sudão e outros locais.

Aqui encontramos a luta pela supremacia no mundo islâmico que se viveu – e ainda vive – entre a monarquia saudita e o Irão xiita, a disseminação da ‘jihad’ após o conflito afegão, a abertura de novos campos de batalha, o progressivo avanço e solidificação de grupos islâmicos na Europa, perante a passividade das autoridades, pouco interessadas em perturbar negócios com os países do Golfo e não só.

Por aqui passam também os grandes nomes que estão na base deste renascimento islâmico, visível sobretudo a partir da década de setenta. Nomes como Sayyid Qutb (referência para quase todos os grupos sunitas dos nossos dias), Mawdudi, Khomeini. Azzam e outros que moldaram, decisivamente, a interpretação da mensagem islâmica e lhes deram contornos incontornáveis na actualidade.

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