Porque devemos chamar-nos cristãos

Porque devemos chamar-nos cristãos

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JOÃO VAZ 

Os recentes atentados de Paris ofereceram-nos alguns motivos para reflexão séria, assim queiramos sair da cartilha do politicamente correcto, permanentemente disposto a enfiar a cabeça na areia e a fazer ‘mea culpa’, mesmo quando esta não existe (o que é quase sempre).

Uma das conclusões que se retira, ou se renova, é a da permanente hostilidade entre duas concepções de mundo, bem expressa nas declarações do sr. Coulibally quando afirma que eles (muçulmanos) atacam porque nós (ocidentais) os atacamos.

É evidente a falácia aqui presente, mas o que interessa relevar, agora, é a auto-exclusão por parte do sujeito: recusa a sua pertença à comunidade francesa, substituída pela islâmica e hostil ao estado-nação vestefaliano, pilar essencial da modernidade.

Por isso, quando comentadores e “especialistas” e jornalistas e outros sábios referem que os atacantes eram franceses, sabem bem que tal não é correcto: há um papel que diz, de facto, que é assim, mas não conta para nada. Sobretudo para eles, que não se reconhecem no mesmo.

Isto conduz ao problema da integração, a sacrossanta integração: ora, esta não pode existir se não houver um referencial identitário que sirva de farol para quem se quer guiar.

Não se pode integrar ninguém se não existir um modelo que sinalize a dita. E ele existe.

O problema é a sua permanente hostilização por parte dos senhores e das senhoras que têm delapidado o património do Ocidente, sobretudo o imaterial (ironicamente tão na moda por estes dias).

Não é difícil reconhecer, a quem de boa fé, que o Ocidente tem uma identidade derivada da herança greco-romana e, sobretudo, cristã. E é esta que deve ser referida, preservada, defendida. Há hostilidade dos que chegam face a tal património? Há, pelo menos da parte de muitos, mas pior que ela é o laicismo desidentificador que ainda é mais ofensivo para quem vem de um mundo marcado por categorias religiosas.

Infelizmente, a própria Igreja Católica é hoje uma herdeira envergonhada de tal herança, constantemente marcada pelo peso de reais ou imaginárias ofensas – já nem falo das igrejas protestantes ou das seitas neopentecostais, despidas de conteúdo teológico e identitário.

É tudo isto que passa por este livro, escrito por um político italiano que já foi presidente do Senado e professor de filosofia política. Disserta aqui sobre o modelo liberal e laico vigente na Europa, levando-nos ao velho problema do liberalismo, que de tanto o querer ser abre caminho à descaracterização e às ameaças mais variadas que pesam sobre a sua própria existência.

Leva-nos ainda à discussão sobre o que é ser europeu, em que consiste a nossa herança e por que razão tem sido sistematicamente rejeitada ou ocultada por quem deve ter a tarefa de a reconhecer.

Pelo meio, claro, a dificuldade de relacionamento com o outro, o que chega e quer impor a sua cosmovisão, tarefa tanto mais facilitada quando se escorraçou do domínio público aquela que se lhe poderia opor.

Depois admiram-se, ou fingem-se admirados, quando há europeus que abraçam o islamismo. Se os privaram de referências, de modelos, de sinais, porquê o espanto quando abraçam outros?

A Europa está sob ameaça, sim, mas o pior dos males vem de dentro e os maiores culpados são aqueles que, sistematicamente, excluíram da História, da Filosofia, das Humanidades aquilo que somos.

Daqueles que desde há décadas nos dizem que devemos ter vergonha no que somos. Esses são culpados. E como não têm valores surgem depois, sem moral nem constrangimento, em manifestações em memória das vítimas que ajudaram a executar.

Somos gregos, somos romanos e sobretudo cristãos. Se queremos continuar a ser europeus é isso que temos de reconhecer e é isso que Marcello Pera nos recorda de forma muito lúcida.

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