Stoner

Stoner

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Uma redescoberta literária

JOÃO VAZ

Este é um dos melhores lançamentos do ano transacto. A literatura contemporânea vale o que vale, muito ou pouco, por vezes a distância não nos permitirá avaliar as coisas com a clareza necessária, mas há títulos que não enganam e este é um deles. 

Se o livro de António Nobre era o mais triste que fora visto em Portugal, “Stoner” será dos mais sombrios que a América viu. Pela indiferença que o envolve e cobre a personagem principal. Um homem que foi aceitando o que a vida lhe foi dando, um homem do passado nesse sentido, o oposto do homem revoltado.

Stoner deixa-se guiar, parece não ter projectos próprios, mas recebe aquilo que lhe é oferecido, sem protestos, sem indignação, muitas vezes sem reacção – a vida é assim e assim está bem. Desde o trabalho na quinta dos pais, passando pela transferência das ciências agrárias para a literatura inglesa, por um casamento morto à nascença, uma filha desconhecida embora vivendo debaixo do mesmo tecto e um cancro que anunciará o fim.

Talvez esteja aqui um indivíduo pouco americano, pelo menos não será moldado à imagem daqueles que construíram a nação soberana em que se transformou no século XX e foram cantados por Walt Whitman.

Mas, à sua maneira discreta, acaba por ser um herói tal como os outros. Em termos essenciais, entenda-se.

Assim terá sido também o autor, John Williams, discreto professor de literatura inglesa, redescoberto há alguns anos em França e posteriormente transformado em referência.

Por quanto tempo, é o que resta saber.

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