Uma guerra a não esquecer

Uma guerra a não esquecer

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diaboJOÃO VAZ

A História portuguesa, seja em território nacional seja nos domínios ultramarinos, é feita de episódios gloriosos que superam largamente os momentos de ignomínia. Mas, ainda assim, estes não estão ausentes. Por entre os momentos menos felizes que vivemos encontramos as campanhas militares em Moçambique durante a Primeira Guerra Mundial. Tendo sido um episódio histórico pouco dissecado, eis que nos surge agora “A Guerra que Portugal Quis Esquecer”, uma obra a colmatar em boa medida essa falha.

Já sabíamos que a participação portuguesa no conflito de 194-1918 se deveu, parcialmente, à necessidade encontrada pelo regime republicano de se legitimar face à Europa. Isso sucedeu, sobretudo, no teatro de operações da Flandres. Mas em África essa realidade terá sido secundarizada face à necessidade efectiva de preservar as possessões coloniais. Se em Angola o conflito pouco durou, em consequência da derrota das tropas alemãs às mãos dos sul-africanos, em Moçambique os confrontos arrastaram-se durante um largo período de tempo no qual as derrotas se foram sucedendo.

E o que salta à vista, neste contexto, é a extraordinária incompetência das chefias militares, mais preocupadas com as boas graças dos políticos, mais preocupadas em fazer política do que em cumprir as suas tarefas (as quais, muitas vezes, eram apenas realizáveis nas imaginações delirantes dos republicanos que em Lisboa ordenavam o impossível). Entre 1916 e 1918 a colónia portuguesa assistiu a um desfilar de decisões incompreensíveis, marchas inúteis, desperdício de recursos, impreparação militar, desprezo pelos subordinados, indisciplina, actos de cobardia, aqui e além pontuados por alguns momentos de lucidez e de bravura, numa sucessão de episódios que foram consumindo milhares de soldados que, as mais das vezes, nem saberiam apontar Moçambique no mapa. Tudo isto sob a responsabilidade do Partido Democrático (apesar da União Sagrada), o que também contribuiu para a sua queda às mãos de Sidónio Pais.

No final, um número indeterminado de mortos, na maioria vítimas da doença, muitos europeus, mas sobretudo africanos arrancados às suas terras e usados como carregadores verdadeiramente escravos, num dos episódios mais tristes da nossa presença em África. Perguntamo-nos como foi possível tamanha impreparação e desleixo, ao ponto de alguns episódios relatados tocarem o domínio do risível.

Uma muito boa narrativa, fluida, entusiasmante, provavelmente reflexo da formação jornalística do autor, mas que não desmerece a componente de investigação realizada. E, no final, um momento de redenção, na carta do tenente Manuel de Oliveira, um dos homens que vai justificando a humanidade. Só por ela vale a pena chegar ao fim da obra.

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