diabo

HUGO NAVARRO

Deambular por uma mega-livraria em Portugal pode transformar-se numa viagem aterradora pelo mundo da idiotia e do vazio. Longe do seu livreiro habitual, o repórter precisou de comprar um livro e teve de passar pela dolorosa experiência…

São purgatórios de uma sociedade acamada com insuficiência mental. É certo que o analfabetismo, em Portugal, está reduzido a menos de cinco por cento da população. Mas quando se sabe que entre os “alfabetizados” estão 99,7% dos portugueses que compõem a faixa etária dos 15 aos 24 anos, e conhecendo-os nós de ginjeira, a palavra “alfabetização” ganha um triste significado. É para eles que estão abertas as ‘megastores’ a que me refiro.

Ao entrar uma pessoa nessas pseudo-livrarias, parece ter havido engano no número da porta: não há livros à vista. As primeiras salas estão pejadas de equipamentos electrónicos, acessórios informáticos, brinquedos cibernéticos, discos, capas para telemóveis, aipodes e ainãopodes, óculos de sol, máquinas de filmar e bugigangas várias. Em papel, mesmo, só um escaparate de revistas frívolas, que por comparação chega a parecer “intelectual”.

Procurando bem, entre o ‘coffee-shop’ e a secção infantil, é possível acabar por encontrar estantes com livros. Mas, aqui, o destaque vai antes para as bancas de “promoções” – um mar de capas iguais umas às outras, de prosas de cordel embrulhadas em couché de fantasia, de autores cuja existência tem a duração dos cinco minutos pagos pela editora para ali os ter expostos, em fugaz glória e nenhum proveito.

As estantes, essas, são apenas armazéns mais baratos, com uma primeira fiada de livros a tapar uma segunda, à qual só um obstinado conseguirá aceder.

Nos seus altares, os sucessos do momento. Em primeiro lugar no topo-dez, uma coisa intitulada “A Rapariga no Comboio”, enredo de mistério incluindo violência doméstica, álcool e drogas, assinado por Paula Hawkins, uma rapariga que começou a fazer pela vida como jornalista de temas financeiros.

Em segundo lugar surge “Viver Depois de Ti”, uma lamechice sem nexo da autoria de outra moça, Jojo Moyes, que depois de ter trabalhado para uma empresa de táxis e um clube de férias, também decidiu ser jornalista. Em terceiro no topo, um português, também jornalista: Pedro Chagas Freitas, autor de “Prometo Perder”, uma noveleta semi-erótica com a devida promoção no livro das caras (mais conhecido por ‘facebook’), onde o prosador surge com ar de sábio com óculos.

Vêm depois, na lista dos “livros” mais vendidos, a escultural Bruna Lombardi (sim, também ela sabe escrever) com o seu “Jogo da Felicidade” e José Rodrigues dos Santos, idem, com o enigmático “Pavilhão Púrpura” (e prometo que nunca tentarei desvendar tal enigma).

Passaram cinco minutos desde que entrei – e já corro para a saída. Não sei se é falta de ar, se é uma náusea funda. E (Deus Nosso Senhor me perdoe) até os brinquedos cibernéticos me parecem mais inteligentes!

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