“T. S. Eliot e Ezra Pound – Uma Tentativa de Aproximação às...

“T. S. Eliot e Ezra Pound – Uma Tentativa de Aproximação às Suas Vidas e às Suas Obras” e “A ideia de Europa no pensamento português”

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Dois trabalhos notáveis

Ora bem, para quem desconfia de Portugal, são momentos como estes que nos levam a ter esperança. Porque, ao lermos, ao vermos, obras como estas, sabemos que há gente com valor, com modéstia, com saber. Que faz trabalho relevante, ainda que não receba prémios ou seja entrevistada pelas (poucas) publicações culturais que ainda subsistem. Adiante.


No primeiro caso, “T. S. Eliot e Ezra Pound – Uma Tentativa de Aproximação às Suas Vidas e às Suas Obras”, de Fernando Guedes, estamos perante quatro comunicações à Academia das Ciências de Lisboa, ocorridas entre 2003 e 2011. Duas delas versando a vida e obra de T. S. Eliot e outras duas as de Ezra Pound. E o que se pode dizer de ambas é que estamos perante excelentes introduções aos dois autores. Desde o seu percurso dos EUA à Europa, até à génese das suas obras-primas, temos aqui esboçado o essencial dos poetas com uma capacidade de síntese que demonstra um domínio e um conhecimento superiores de ambos. Um trabalho que não desmereceria em qualquer língua, assim houvesse edição lá por fora. Em Eliot, é a sua aproximação ao grupo de Bloomsbury, o seu afastamento e progressivo renascimento, a formação inicial até à geração de um pilar da nossa cultura como é “A Terra Devastada”, e depois o reconhecimento, a consagração e o culminar (?) em “Quatro Quartetos”.

Em Pound é a singularidade do génio, a sua generosidade e capacidade para reconhecer e apoiar o talento alheio, o percurso ideológico que culminou nas conferências da rádio Roma, a edificação desse monumento que dá pelo nome de “Cantos”. Está tudo aqui, e quem quiser iniciar-se nestes autores ou quem quiser rememorar o essencial, largue âncora por este pequeno volume.

O segundo trabalho, “A ideia de Europa no pensamento português”, de Martim de Albuquerque, é outro momento de elevação intelectual. Reedição de um original de 1981, mostra-nos como a ideia de Europa marcou o pensamento português ao longo de séculos, num percurso que serve também para ilustrar que este canto não andou assim tão isolado do que se fazia lá por fora como tantas vezes se quer fazer crer. De resto, a unidade ideológica da Europa medieval não o teria permitido e se, posteriormente, terá havido algum atraso pontual na recepção de um ou outro pensador, o certo é que as ideias foram chegando e não foi por falta delas que não floresceram em solo indígena (o nosso). Mas como não só de Idade Média é feita a nossa História, para lá da recepção da ideia de Europa e seus desenvolvimentos posteriores, cabe aqui também o confronto ideológico com o resto do mundo, ao longo e depois do século XVI, num processo de formação identitária onde se vê claramente que, embora atlânticos, nunca descuramos a outra dimensão da nossa essência, a europeia.

Completa-se o trabalho com um anexo, “Os Estados Unidos da Europa”, de Charles Lemonnier, em versão portuguesa de Magalhães Lima, a ilustrar o debate que havia no século XIX sobre a questão europeia, a da sua unidade, organização política e necessidade de pacificação, bem dentro de um espírito positivista de crença no progresso e na capacidade humana para organizar uma verdadeira federação, pacífica e empenhada no desenvolvimento moral e social. Verdadeira ética republicana, que provavelmente não foi assimilada por muitos dos que a apregoam.

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