Um trauma norueguês ainda por sarar

Um trauma norueguês ainda por sarar

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PAULO FERRERO

“Duas Vidas”, realizado pela dupla Georg Maas e Judith Kaufmann, não é um filme sobre o Programa Lebensborn (“fonte da vida”), o projecto tenebroso que Himmler idealizou e levou à prática durante 10 anos, promovendo a procriação de crianças entre oficiais militares alemães e mulheres dos países então ocupados (leia-se arianos…) pela Wehrmacht, permitindo àquelas o darem à luz secretamente, longe da reprovação dos seus conterrâneos – as crianças, depois de “educadas”, eram dadas “criteriosamente” para adopção. Mas antes o tivesse sido porque teria dado um filme muito mais interessante.

Em vez disso, o filme aborda o tema pela rama (talvez porque o trauma do dito cujo esteja ainda profundamente presente na sociedade norueguesa) e volta-se para uma narrativa de espionagem banal, no cenário do pós-queda do Muro de Berlim. Aliado ao facto da realização (demasiado telegénica – a co-realizadora também é a responsável pela fotografia) e a montagem (satura tanto “um passo à frente, dois atrás”) não serem as melhores, nem as interpretações, já agora (Liv Ullmann incluída), “Duas Vidas” cedo fica a perder pela opção feita ao enveredar numa história atabalhoada e algo ridícula, por vezes.

Seja como for, continua a haver dois filões cinematográficos chamados Segunda Guerra Mundial e “espionagem à volta do Muro”, pelo que o filme consegue manter-se à tona e manter o interesse do espectador incólume até ao epílogo, inevitável. Isso e os belíssimos cenários reais daquela Bergen e daquela estrada entre ilhas.

Resumindo, Lewis Milestone e Errol Flynn podem continuar descansados: “Um Raio de Luz” (1943) continua a ser o melhor filme sobre a Noruega resistente, que o foi, essencialmente.

  • Duas vidas
  • Título original: Zwei leben
  • Realização: Georg Maas e Judith Kaufmann
  • Com: Juliane Köhler, Ken Duken, Liv Ullmann, Sven Nordin
  • ALE, 2012, 96 min.
  • Estreia: 23 de Outubro de 2014.

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