A acefalia reinante

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Estava o escriba a preparar a pena, depois de compilada a informação pertinente, para escalpelizar a pertinência e adequação das (novas) escolhas ministeriais, vai que o Will Smith resolve espetar uma estalada em Chris Rock, em plena cerimónia de entrega de Óscares. De repente, a pandemia deixa de existir, a invasão da Ucrânia passa para segundo plano e os ministros do novo governo são relegados para nota de rodapé. O mundo todo passa a discorrer sobre a virtude da agressão e a falta de gosto da piada que a motivou. Ajuda, claro está, não ser assunto que requeira especial estudo ou elevadas competências literárias. O débito de “posts” assume proporções gongóricas e, na réplica de comentários, a discórdia centra-se nos extremos e rapidamente escala para agressões verbais e, até, para a ameaça. Rapidamente se perde o fiel da balança e as posições de permeio que tentam analisar os factos com a distância e isenção que se impõe são engolidas na voracidade com que se condena aqueles que discordam. 

Quais são, então, os factos? Ajuda, no exercício, retirar os nomes dos envolvidos. Os nomes emprestam sempre uma certa empatia ou repúdio pois já há um pré-juízo relativamente a tais pessoas. Se os reduzirmos a incógnitos X e Y a avaliação deixa de ser emocional. Então cá vai:

X vai acompanhado da sua mulher a um determinado evento, conhecido por ter contratado o humorista Y para o apresentar, fazendo gala disso e representando este uma mais-valia. Paralelamente, havia uma pressão do público e comunicação social para que o humor fosse direccionado aos convidados, sendo notados os remoques e críticas quando assim não foi ou as piadas foram consideradas muito “softs”. Dá-se ainda a curiosidade de X e Y serem amigos há longa data e de Y até já ter feito piadas públicas sobre o casal. Sabiam, portanto, ao que iam, ou a risco a que estavam sujeitos. 

Ora, a meio da apresentação, Y faz uma piada sobre a falta de cabelo da mulher de X. X ri-se da mesma. A mulher não. X levanta-se, dirige-se ao palco e esbofeteia Y, que não reage. X continua a vociferar, do seu lugar, impropérios e ameaças a Y, que, apesar de tudo, continua a cerimónia. O público, espantado e incrédulo, é o mesmo que aplaude X de pé quando este, minutos mais tarde, sobe ao palco para receber um prémio, que agradece, em lágrimas, confessando-se um veículo de amor. Volta a sentar-se e assiste ao resto da cerimónia impávido e sereno.

A “internet” explode em mensagens de apoio, quer condenando a piada, quer aplaudindo a atitude. 

Ora, desta forma crua, se calhar a coisa parecerá um pouco diferente ao leitor.

Primeiro, quanto aos limites do humor, que não devem ser sujeitos à apreciação individual de cada um de nós, como se se tratasse de uma barreira do certo ou errado. Tal distinção não opera no humor, conhecendo este, na sua subjectividade, apenas o conceito de bom ou mau. E para o qual temos bom remédio: não vemos, não assistimos, não patrocinamos. Como em tudo na vida!

Segundo, se a piada fosse ofensiva (que não foi), existe todo um edifício judiciário que a protegeria. Chama-se lei e existe, exactamente, para impedir que o ímpeto reactivo possa redundar em justiça pelas próprias mãos.

Terceiro, não vislumbro necessidade ou proporcionalidade numa agressão física, como resposta a uma troca de palavras. São armas desiguais.

O próprio Will Smith se riu da piada. Não a considerou ofensiva. Não considerou que menorizasse a sua mulher. Aliás, já tinha feito, anos antes, num programa televisivo, uma piada com quem sofria condição idêntica. Não tinha, portanto, legitimidade. Ou, tendo-a, não teria moral.

O que fez a seguir foi despejar num Chris Rock, desprotegido e comprometido pela situação em que se encontrava, toda a raiva que sentia contra uma comunicação social que inflava por uma alegada traição da sua mulher. Aquele estalo foi todo um acto de revolta que já não conseguia conter e que foi vencido pelo seu espírito animal. Tem direito, é certo. O que não quer dizer que seja correcto. Podemos entender, até desculpar, mas nunca normalizar. Sob pena de não sermos melhores e de não distinguirmos o certo do errado. Como não entendeu a Academia ao permitir que um agressor se mantivesse na sala depois de cometer um crime pelo qual, qualquer outra pessoa, seria imediatamente detido.

O pedido de desculpas a Chris Rock, no dia seguinte, demonstra que o próprio percebeu o lapso. Ora, custa-me entender como é que alguém admite ter errado, pede desculpa por isso e subsiste todo um séquito de seguidores que continua a achar que o comportamento foi correcto (e até merecido), quando nem o próprio acha.

Fica ainda no ar, uma pergunta: se Will Smith fosse branco a complacência e o apoio teriam a mesma dimensão?

Esta acefalia reinante peca porque, ao contrário do que escrevem (e, nalguns casos, até acreditam), não defendem valores, apenas reacções mediatizadas. Quando João Quadros, sem qualquer motivo que não a ofensa gratuita, entendeu comparar Laura Ferreira, quando esta sofria de doença terminal da qual viria a falecer, a um “skinhead”, nenhuma dessas alminhas cândidas veio tomar as dores de Passos Coelho ou exigir um murro bem dado na tromba do perpetrante. A tal defesa da honra de terceiros, ao que parece, não tem lugar cá no rectângulo. Não teria também lugar se, por absurdo, o Papa, quando ouvisse uma piada sobre os padres pedófilos, se levantasse da ‘sedes gestatória’ para esbofetear o pretenso humorista, em defesa da Igreja.

A acefalia reinante que tudo “tweeta” e comenta, não se colocou ao lado dos terroristas quando estes entraram no Charlie Hebdo e começaram a matar pessoas, os tais infiéis que gozaram com a sua fé e o seu profeta! Ao invés, mostraram-se solidários com aqueles que resolveram caricaturar Alá em ofensa directa a milhões de pessoas que o têm por sagrado, colando nas fotografias de perfil “Je suis Charlie”. Não são, nunca foram. Não passam de umas bestas quadradas incapazes de distinguir valores de tendências cibernéticas. Se tivessem um neurónio que fosse, olhavam para o elenco governativo e percebiam a ofensa da piada que Costa faz a todo um povo ao nomear Medina para as Finanças ou Adão e Silva para a Cultura.

Mas a piada, para eles, é boa e, em vez de chapadas oferecem palmas! ■