A força do Chega

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Num país que esqueceu os testes de QI, André Ventura funciona como um teste de QI ambulante: é entre as pessoas que o apoiam incondicionalmente e as pessoas que o odeiam visceralmente que encontramos aqueles cujo QI está bastante abaixo da média.

Ventura não é, nem de perto, o salvador da pátria ou o regenerador da Direita – já o ouvimos relegar para referendo, em vários debates, questões de valores que, para um homem de direita, seriam impossíveis de discutir ou decidir em voto popular, como se se tratasse de decisões corriqueiras.

Da mesma maneira, Ventura não é nenhuma ameaça para a democracia nem para o regime e as medidas do programa que são comummente atacadas, como a questão do fim do SNS ou do Ministério da Educação, não são para ser levadas a sério. Entre as poucas coisas que os analistas e profetas do futuro do Chega dizem que não é uma verdadeira chachada é precisamente que um governo Chega, a ser alguma vez concretizado, será coisa normal e inócua, como podemos adivinhar das comparações com outros partidos de “extrema-direita” alçados a governo por essa Europa fora.

Contudo, entre as arengas contra os ciganos ou o número de deputados da Assembleia, no meio de toda uma comunicação exaltada e da interrupção entusiasmada dos seus oponentes políticos, encontramos em Ventura uma força avassaladora: uma capacidade incrível de adaptabilidade.

Os que leram o meu último texto sobre Tânger concluíram comigo que esta é a grande vantagem histórica dos portugueses. Durante anos, a capacidade para se adaptar ao eleitorado foi uma vantagem do partido que deu a Ventura a sua escolaridade política, o PSD. Esta adaptabilidade portuguesa deu ao nosso povo o dom de perdurar durante as diferentes eras da História.

Durante os anos 60 e 70 surgiram movimentos em Portugal ideologicamente vinculados à direita radical. Esses movimentos estão agora a ser estudados por académicos sérios e por académicos das esquerdas que procuram dar toques de requinte às suas caças às bruxas. Algo que é nítido na direita ideológica portuguesa é a sua inconstância, o facto de não se aguentar muito tempo. Isto é visto nos círculos científicos como uma desvantagem, o que só comprova que os círculos científicos sabem pouco da ciência do país que estudam.

Há poucas coisas em Portugal que sejam permanentes. As que são, contudo, são eternas; e mesmo torcidas e retorcidas, como é o estado do nosso catolicismo, ficam. Os portugueses, do alto dos seus 900 anos de nação independente, não se dão ao erro, comum nas nações mais jovens, de se deixarem possuir por uma ideologia. Mesmo não sendo conservador nas conclusões, o português é conservador nos seus meios. Aqueles que se dedicaram politicamente a lutar por Portugal através das suas ideologias, tanto à esquerda como à direita, cedo se aperceberam, pelo menos aqueles que conseguem chegar à maturidade política, que as ideias que interessam em Portugal e para Portugal são muito poucas.

O Chega de Ventura é como aqueles milicianos de Penafiel que eu conheci que conseguiram, há coisa de muitos anos atrás, aparecer na televisão com paus e mocas e espingardas a dizer que andavam pelas ruas da cidade a fazer aquilo que a polícia não fazia, que era apanhar o gangue de gatunos que andava pelas cercanias a assaltar casas. A notícia passou como se Penafiel se tivesse transformado num Afeganistão e no final nem os milicianos alguma vez se organizaram para fazer nada que não fosse aparecer na TV nem os tais meliantes voltaram a perturbar os penafidelenses.

A força do Chega é esta: enfiado no seu enorme vácuo, o Chega é o veículo perfeito para os portugueses conseguirem assustar o regime, fazer abanar os interesses instalados da partidocracia e atacar os privados acarinhados pelo poder que abusam da economia e criam uma instabilidade social tal que torna impossível aos portugueses jovens criar uma família ou comprar uma casa. Não interessa se a ameaça é séria ou não – o que interessa é que os gatunos estão borrados de medo. ■