Futebol português a Leste do “paraíso”

Futebol português a Leste do “paraíso”

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Nunca se gastou tanto dinheiro com o futebol, e também nunca o futebol deu tanto lucro. Países como Inglaterra, China, Espanha e Estados Unidos competem e investem para ver quem consegue ter o melhor espectáculo, que cada vez mais contribui para as economias nacionais e os erários públicos. No entanto, Portugal, campeão europeu, está a ficar irremediavelmente atrasado nesta “corrida às armas” futebolística, fruto de uma estrutura desportiva arcaica.

Se o passatempo favorito dos europeus fosse um país independente, o futebol seria a 32º maior economia da Europa. No total, graças a ser uma das indústrias em maior crescimento nas últimas décadas no velho Continente, o futebol rendeu 25 mil milhões de euros no ano passado. Na generalidade da Europa, o impacto “da bola” na economia já não é um mero elemento residual deixado para uma qualquer Secretaria de Estado obscura e meio-esquecida. Na verdade, é um dos poucos sectores económicos em franco crescimento na Europa: nos últimos 20 anos, as receitas do futebol aumentaram 600 por cento. Somente nos últimos dois anos, o peso do futebol na economia da Europa aumentou 5 mil milhões de euros, o equivalente a todo o IRC cobrado pelo Estado português num ano.

No caso do Reino Unido, estima-se que só a Premier League criou 100 mil postos de trabalho – não apenas directamente, mas também na cadeia de fornecimento directa aos eventos, na comunicação social e no turismo que a modalidade gera. Esta Liga desportiva adicionou quase 4 mil milhões de euros à economia do Reino de Isabel II no ano passado, e rendeu mais de 3 mil milhões de euros ao erário público.

Apesar de impressionante, a Premier League inglesa é apenas um dos vários casos de grande sucesso no continente, visto que a Bundesliga alemã cresceu a ponto de gerar hoje rendimentos quase de 3 mil milhões de euros, a Liga Espanhola alcançou 2 mil milhões, e os campeonatos italianos e francês ambos superam mais de mil milhões em rendimentos anuais.

Pensar-se-ia que a Liga portuguesa, que opera num país absolutamente viciado em futebol, partilharia algum espaço com os grandes, mas nada de mais errado. Em termos económicos, Portugal encontra-se relegado para um lugar francamente secundário no novo mundo do futebol. E, embora a população do nosso País seja reconhecidamente diminuta para ser comparada com outras, a questão não é meramente populacional mas também de atitude e organização, visto que o futebol português é superado pelas Ligas de futebol da Bélgica e da Holanda, ou até mesmo por organizações como a Liga Australiana de Futebol segundo “regras australianas” (apenas aplicadas nesse país, cuja população é apenas o dobro da portuguesa) e a Liga “top 14” de rugby em França.

Portugal falido

Em termos económicos, o paralelo a fazer em relação à situação do futebol nacional é com a bancarrota do Estado português em 2011. Portugal tem a quarta Liga de futebol mais endividada da Europa, e é de longe a mais endividada de todas quando se tem em conta a dívida em proporção aos rendimentos. Para conseguirem competir na “corrida às armas” de jogadores e estruturas, os clubes portugueses cobriram-se de dívidas: no total, os clubes da Primeira Liga portuguesa deviam em 2015 quase 600 milhões de euros a vários credores, valor que se aproxima quase do dobro total das receitas que os clubes auferem num ano. Nem as contas do nosso Estado se encontram em tão má situação.

Em comparação, os poupados clubes alemães aproveitaram o recente sucesso em captação de receitas para irem pagando a sua dívida total, que é um quinto da dívida portuguesa, e representa apenas 6 por cento das receitas do futebol teutónico. A dívida do futebol inglês é a maior, um enorme total de 1,6 mil milhões de euros, mas face ao sucesso da Premier League apenas representa 38 por cento das receitas. Os italianos encontram-se numa situação similarmente desafogada, enquanto os franceses devem menos do que os portugueses, apenas 523 milhões de euros. Em termos de comparação, Portugal não tem um único clube no ‘top 10’ de receitas, mas um dos clubes nacionais marca presença entre os mais endividados.

Apesar do muito elevado endividamento, os clubes portugueses nunca viram um verdadeiro retorno dos seus investimentos, realidade concretizada nos baixos rendimentos que a Liga no geral aufere. Para pagar a dívida, os clubes precisariam de ver os rendimentos aumentar. Esta questão não difere muito quando transposta para o plano das contas nacionais: também um país precisa de ver a sua economia crescer para ir pagando a dívida pública. No entanto, tal como o caso do país, o futebol português enfrenta uma estagnação económica nas receitas. Em seis anos, o crescimento médio das receitas dos clubes portugueses foi de 2,1 por cento, um dos piores valores da Europa. Em comparação, as receitas na Liga suíça (país onde o futebol é muito menos popular) cresceram 63 por cento, na Bélgica aumentaram 50 por cento, em Inglaterra cresceram 80 por cento e em Espanha 36 por cento.

A “bolha de ar”, que nos últimos anos até permitiu ao futebol português reduzir ligeiramente o seu endividamento, são as transferências de jogadores, que ocupam um peso desmesurado no financiamento da futebol nacional, representando o equivalente a 75 por cento da receita total da Liga. No entanto, este “ouro do Brasil” futebolístico é uma receita incerta, muito dependente de negócios pontuais. Em 2015, por exemplo, Portugal teve dois clubes na lista dos 20 clubes com mais lucros nesse ano, mas em 2014 esses mesmos clubes não tinham sequer alcançado o ‘top 100’. Apenas seis outros nomes na lista se encontravam na mesma situação.

Em comparação, na Premier League inglesa as negociações de jogadores apenas representam 15 por cento, na Liga Espanhola 24 por cento, e na Liga Italiana 36 por cento.

Estrutura arcaica, Lusofonia ignorada

Face à sua diminuta população, Portugal necessitaria, neste momento, de realizar os mesmos acordos de transmissão de direitos televisivos para os mercados internacionais que enriqueceram as outras Ligas. O elevado crescimento em termos de receitas das ligas europeias deve-se mais à negociação deste tipo de acordos do que apenas no aproveitamento do mercado interno.

A Premier League, a título de exemplo, está disponível para uma audiência estimada de três mil milhões de espectadores — e alguns derbies conseguiram audiências entre 500 e 600 milhões de pessoas — apesar de a Liga operar num país apenas com 60 milhões de habitantes.

As restantes Ligas europeias estão todas a fazer acordos similares, sempre com o olho nas receitas dos direitos televisivos, na venda de camisolas e cachecóis, e na negociação de publicidade.

Portugal, supostamente, estaria numa posição privilegiada para vender direitos televisivos. O interesse pelo futebol nacional nos países da Lusofonia é significativo, e foi demonstrado pelas multidões que apoiaram a selecção nacional durante a sua marcha triunfal no Euro 2016. Angola e Moçambique até se encontram quase no mesmo fuso horário dos jogos portugueses. Existe interesse demonstrado no futebol português no Brasil, na Índia e em Timor, entre vários outros recantos do planeta. No entanto, sempre que as equipas de maior dimensão se defrontam, nas redes sociais é comum ver-se habitantes de outros países, e até mesmo emigrantes portugueses, a queixarem-se que não têm forma legal de seguir muitos dos jogos.

Este fenómeno deve-se ao facto de a Liga portuguesa ser das poucas da Europa que não negoceia conjuntamente os direitos televisivos, sendo que cada clube faz os seus acordos separadamente. Em França, por exemplo, onde reside uma grande comunidade emigrante portuguesa, é necessário ter-se mais do que uma dispendiosa subscrição de serviços de TV caso se queira assistir a jogos do Sporting ou do Benfica.

Em contraste, os jogos da maioria dos escalões competitivos europeus são negociados pelas Ligas em nome de todos os clubes. Entre nós, o plano da Liga de Clubes de centralização das negociações dos direitos desportivos cai sempre por terra, mesmo depois de ter sido uma das plataformas centrais da candidatura de Pedro Proença, actual líder da Liga portuguesa.

Uma das causas do falhanço das negociações é o facto de, segundo este sistema, os rendimentos dos direitos televisivos serem partilhados de forma equitativa. Cada Liga desportiva negoceia os direitos televisivos em nome dos seus clubes-membros e redistribui essa quantia de uma forma equilibrada. Cada clube depois gere o seu quinhão, e mantém exclusivamente para si todos os lucros de publicidade, venda de bilhetes e ‘merchandising’. A famosa Premier League inglesa usa este sistema, e o primeiro classificado apenas aufere mais 2 vezes mais do que o último. A Bundesliga germânica faz o mesmo, bem como a Liga francesa e a Liga italiana, e agora até a Liga espanhola. O objectivo desta estratégia é evitar grandes disparidades de rendimentos entre clubes, criando um campeonato mais competitivo e, por arrasto, mais aprazível para o telespectador e adepto desportivo.

Desde que esta fórmula foi adoptada, todas estas Ligas viram as receitas gerais de cada clube dispararem. A Liga inglesa, muito mais competitiva, consegue negociar valores elevados, e assinou recentemente um acordo de 8 mil milhões de euros anuais para três anos com várias operadoras para distribuição doméstica e internacional.

A Liga Espanhola seguia o modelo português até o Estado ter tomado medidas directas. Os dois principais clubes, o Real Madrid e o Barcelona, negociavam sozinhos com as operadoras, e concentravam em si quase todos os rendimentos dos directos televisivos da Liga espanhola, algo a que o Estado espanhol franziu o sobrolho por razões fiscais: embora tivesse duas das empresas desportivas mais lucrativas do mundo no seu território, quase todos os restantes clubes acumulavam dívidas astronómicas ao Fisco. Mariano Rajoy, primeiro-ministro de Espanha, decidiu intervir e determinou, por lei, que os direitos televisivos passariam a ser negociados centralmente, e que a Liga espanhola passaria a distribuir esses rendimentos de forma equitativa. Na lei também está disposto que as receitas vão financiar directamente a segunda Liga de futebol.

Em Portugal, entretanto, a disparidade entre as receitas dos clubes continua a ser muito grande, face à falta de capacidade do Estado para regular uma das suas maiores indústrias, e a janela de oportunidade para o futebol nacional se internacionalizar complica-se ainda mais devido à chegada de competidores de fora da Europa.

EUA e China chegam à festa

Até ao início do século XXI, o futebol europeu nos EUA era quase considerado uma curiosidade exótica, mas o “bichinho da bola” instalou-se nas terras do Tio Sam. Os chineses, que tentam subir a pulso na hierarquia mundial de poder, também não querem ficar para trás em termos de desporto.

Nos EUA, a solução para evitar os bloqueios existentes em estruturas como a Liga portuguesa foi uma centralização feroz da Major League Soccer (MLS). Na realidade, não existem clubes independentes no futebol norte-americano, apenas concessões para operar dentro da MLS, e cada dono de equipa tem de pagar uma maquia para entrar no campeonato (actualmente, 150 milhões de dólares), não existindo promoções nem despromoções como no modelo europeu. O resultado da gestão da Liga norte-americana como uma empresa privada foi um aumento exponencial em receitas e audiências. A receita média de cada equipa norte-americana já superou consideravelmente a das equipas portuguesas, e actualmente, graças à negociação centralizada de direitos televisivos, já chega a uma audiência maior do que a Liga de um dos países mais viciados em futebol do mundo.

Entretanto, o Governo chinês tornou o domínio “da bola” uma questão política e de competição internacional. “O meu desejo é que o futebol chinês venha a ser um dos melhores do mundo” – anunciou publicamente o Presidente da China, um fã apaixonado do desporto que equaciona a vitória dentro de campo como uma vitória patriótica. Os comunistas chineses estão a estudar a própria história para substanciar a sua alegação de que o futebol (embora não a versão moderna) tem os seus primórdios na China. Entretanto, incentivados pelo Estado, vários empresários chineses estão a oferecer valores astronómicos por talentos europeus, incluindo o jogador Carlos Tevez, que vai auferir 600 mil euros diários, ou o treinador português André Villas-Boas, que vai receber 60 milhões anuais.

Considerações políticas também existem. Tal como nas Olimpíadas, o triunfo no futebol eleva o estatuto de um país. E Portugal percebeu-o quando venceu o campeonato europeu. Talvez por essa razão circulem rumores de que os americanos, até mesmo a nível do Estado federal, estão a trabalhar activamente para garantirem a realização do campeonato mundial de futebol de 2026 nos Estados Unidos.

Em Portugal, existe um produto pronto para ser exportado para todo o mundo, mas as barreiras locais para isso ser alcançado são enormes, e a janela de oportunidade fecha-se de dia para dia.