Os maus hábitos anteriores à bancarrota nacional estão de regresso: os portugueses voltaram a contrair créditos atrás de créditos para consumir desmesuradamente, muitas vezes bens de luxo. No entanto, as políticas do Estado incentivam a irresponsabilidade, pois para aqueles que acreditam nos valores da poupança não existe praticamente nenhuma conta ou aplicação onde colocar o dinheiro a render de forma razoável.

Os portugueses andaram “viciados” em dívida durante a primeira década do século XXI, e até agora estivemos a pagar os custos de viver acima das nossas possibilidades. A dívida das famílias, por exemplo, baixou 10 pontos percentuais em apenas dois anos, enquanto evitámos contrair crédito por tudo e por nada.

No entanto, desde que começou o discurso oficial das “boas notícias”, a irresponsabilidade regressou. Só no primeiro semestre deste ano o crédito ao consumo (ou seja, sem incluir crédito para habitação) disparou 11 por cento em relação ao primeiro semestre de 2016. Mas se contarmos só os dados mais recentes, o crédito concedido para consumo aumentou 20 por cento só no mês de Junho deste ano, tendo os portugueses contraído dívidas de mais de 540 milhões de euros neste mês para poderem continuar a consumir. Isto segundo números provisórios do Banco de Portugal.

Gastar e esbanjar

Comparado com Julho de 2012, em plena crise de dívida, os valores quase que duplicaram, de 301 milhões de euros em novos créditos, para os actuais 540 milhões. Isto segundo números provisórios do Banco de Portugal. Gastar e esbanjar Comparado com Julho de 2012, em plena crise de dívida, os valores quase que duplicaram, de 301 milhões de euros em novos créditos, para os actuais 540 milhões. Pensar-se-ia que este dinheiro iria para investimento, mas não: na realidade, as empresas continuam a ter grandes problemas de financiamento — tal como já foi sublinhado neste jornal — e o segmento de “educação, saúde, energias renováveis e locação financeira de equipamentos” apenas consiste nuns míseros 4 milhões de euros, enquanto que os outros créditos, para consumo, alcançaram a cifra de 200 milhões de euros.

Os portugueses também contraíram 86 milhões de euros em dívidas no cartão de crédito, e quase 200 milhões de euros a comprar carros, sejam eles novos ou usados. Aliás, há muitos anos que os portugueses não compravam tantos carros. A confirmar-se o actual ritmo, este ano vai ser vendido um carro por cada 10 portugueses, mais do que um milhão de automóveis, o dobro dos valores registados em 2010. Este ano poderá ficar na história como aquele em que se venderam mais automóveis em Portugal. Tudo graças ao crédito.

E é esperado que em Agosto e Setembro a situação do endividamento ainda que pior. Com as “boas notícias” a chegar de São Bento, os portugueses afuíram ao Algarve durante as férias — que registou um aumento de 10 por cento na ocupação hoteleira por parte de nacionais — e muitos agora não tiveram dinheiro para comprar os materiais escolares: um terço das famílias admitiu que iria usar o cartão de crédito para comprar o material escolar dos lhos em Setembro, um aumento considerável face ao ano passado.

Pobres com créditos

O grande inimigo da responsabilidade financeira dos portugueses, entretanto, é de peso, sendo o Banco Central Europeu que mantém taxas de juro extremamente baixas para “estimular” a economia. Ou seja, para “estimular” o consumo com créditos baratos. Dir-se-á, face aos números, que este programa tem um impacto muito maior na retoma económica do que qualquer política de António Costa, visto que o aumento das exportações era uma bandeira do anterior Governo e o aumento do consumo se deve ao aumento do crédito. Nas contas bancárias, os efeitos do despesismo já se notam.

Só já existem 140 mil milhões de euros depositados nos bancos nacionais, e desde que Costa tomou posse que sai mais dinheiro das contas bancárias do que entra. Em Janeiro ainda estavam nos bancos 143 milhões de euros, tendo, portanto, três mil milhões sido levantados para gastar. Em Julho de 2017 existia menos 1,7 por cento de dinheiro guardado no banco do que em Julho de 2016.

No resto da Europa, onde se aprendeu mais com a crise, os depósitos aumentaram 3,3 por cento em relação ao ano passado. Ou seja, colocando estes valores em comparação, os portugueses retiraram do banco para gastar mais do que todo o orçamento do Ministério da Defesa Nacional ou do Ministério da Administração Interna.

É expectável que continue a sair dinheiro dos bancos visto que, segundo dados da OCDE, os ordenados reais dos portugueses que não são funcionários públicos pouco vão aumentar nos próximos anos. Aliás, o “enorme” aumento nos ordenados deste ano resumiu-se a uns meros 13 euros em média.

Em muitos casos, existe o perigo de termos aumentos mais pequenos do que a inflação. Tudo trocado por miúdos, muitos de nós vamos ficar, na verdade, mais pobres, só que pobres com acesso a mais crédito. Ou seja, a mesma política que arruinou milhões de portugueses nos anos da crise.

Não vale a pena poupar

As baixíssimas taxas aplicadas pelo banco da União Europeia, no entanto, não permitem que os portugueses tirem grandes benefícios de terem dinheiro guardado, uma situação que cria grandes dificuldades a cidadãos reformados, e a muitos cidadãos que querem ser responsáveis com o seu dinheiro. A taxa de juro encontra-se abaixo de um por cento ao ano, e ainda há que pagar impostos e comissões sobre qualquer lucro que se obtenha.

Em simulações feitas pel’O DIABO, colocar, por exemplo, cinco mil euros no banco a prazo a um ano dá, no máximo, 4 euros por mês, em média cerca de um euro, e não ganha absolutamente nada em alguns dos maiores bancos nacionais depois de descontadas as taxas e os impostos. Mesmo com uma quantia grande como 50 mil euros, e um prazo grande como três anos, o cliente raramente aufere mais do que 20 euros por mês. Os Certificados de Aforro, que outrora tinham tido taxas de juro razoáveis, viram as mesmas ser cortadas por ordem do Executivo de António Costa. Na série C, por exemplo, a taxa passou de 2,75 por cento para uns míseros 0,75 por cento.

Restam os Certificados do Tesouro, ou seja, financiar a República, mas também esses não são uma opção muito lucrativa, oferecendo 1,25 por cento de taxa de juro anual, que sobe aos 3,25 por cento ao fim de quase meia década. Uma verdadeira “fortuna”…

Sem ordenados, sem possibilidade de poupar, mas com um Estado que incentiva o consumo a qualquer custo para car bem nas estatísticas, o endividamento está novamente a subir.

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