TAP: saudosismo à norte-coreana

O acordo há dias celebrado entre o Governo e os sindicatos da TAP, prevendo cortes salariais nunca vistos de 50%, é apenas um primeiro passo no longo calvário que aguarda a companhia aérea. Falta ainda superar o ‘exame’ de Bruxelas e garantir que uma TAP estatizada (com os contribuintes a injectarem nela milhares de milhões) terá realmente viabilidade.

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Num passado longínquo, a sigla TAP queria dizer Transportes Aéreos Portugueses, hoje quer efectivamente dizer Todos A Pagar. Num rasgo de saudosismo por ter o Estado a mandar em tudo e todos, sem dúvida a arrasto dos seus antigos amigos de geringonça, António Costa travou a reprivatização da TAP em 2015, tornando Portugal um dos últimos países desenvolvidos que ainda é dono de uma linha aérea. Sim, caro leitor, ao contrário das mentiras que são propagandeadas pela esquerda nos telejornais, não é prática normal uma Nação desenvolvida ser dona de uma linha aérea nos dias que correm.

No resto do Primeiro Mundo, a privatização tornou-se uma política comum. A saber: os ingleses desfizeram-se da famosa British Airways em 1987, os franceses venderam a Air France em 2004, os alemães a Lufthansa em 1994, os japoneses a Japan Airlines em 1987, os australianos a Quantas em 1992, os canadianos a Air Canadá em 1989, a Noruega todas as suas acções na SAS em 2018, e por aí em diante. Os americanos, líderes na aviação mundial, nunca tiveram transportadoras aéreas nacionalizadas. Até mesmo uma antiga província ultramarina portuguesa já acordou para a realidade: o Governo da Cidade da Praia privatizou a Cabo Verde Airlines no ano passado. 

Este é um caso em que o saudosismo da extrema-esquerda portuguesa com a URSS e os seus regimes satélites se manifesta em forma económica, pois a TAP fica, assim, numa “bela companhia” que inclui a Air Koryo da Coreia do Norte, a TAAG angolana e a Air China da República Popular da China. E, claro, não esquecer as inúmeras pequenas companhias aéreas estatais que todo o país de Terceiro Mundo em posse de um Topolev a cair de podre gosta de manter, para demonstrar ao mundo que existe. 

Agora, para António Costa, camaradas e ‘compagnons de route’ mostrarem ao mundo as suas credenciais socialistas (e quiçá arranjarem uns belos ‘tachos’ para ‘boys’ e ‘girls’), vamos todos ter que pagar com língua de palmo, até mesmo aqueles que nunca viajaram na TAP.

PREC na TAP

Perante o colapso da TAP colectivizada, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa conseguem mesmo assim ir às televisões atribuir culpas à reprivatização (que nunca verdadeiramente aconteceu) organizada por Pedro Passos Coelho nos dias finais do seu Governo. Um ‘mea culpa’ não lhes ficaria mal, visto que foram o PCP, os antepassados do BE e toda a tralha revolucionária do folclore político nacional que deram os primeiros passos a caminho da destruição da TAP. 

Antes do infame PREC de má memória, a TAP era uma empresa privada em clara expansão. Aliás, a TAP foi privada entre 1953 e 1975, sempre com lucro e com a possibilidade de adquirir as aeronaves mais modernas da sua época, como os míticos Sud-Aviation Caravelle e os Boeing 747. Hoje vai ter de vender aviões, porque a turba decidiu que esta empresa bem-gerida tinha de ser nacionalizada.

Mesmo após o 25 de Novembro, o PREC continuou dentro da empresa, pois seguiu-se um longo período de guerra civil grevista que foi sistematicamente debilitando e corroendo a empresa. A extrema-esquerda e o PS refugiam-se hoje num discurso saudosista e defensor da comunidade de expatriados portugueses, esquecendo-se das vezes em que as greves deixaram imigrantes em terra, longe das suas famílias, em pleno Natal. Tão recentemente como em 1997, um Governo PS foi forçado a fazer requisição civil e a lembrar aos grevistas que a TAP era “uma das principais modalidades utilizadas pelos emigrantes portugueses que aproveitam a época estival para estreitar os laços de solidariedade que unem as comunidades portuguesa”. Não serviu de muito: outras greves se seguiram, geralmente durante Governos PSD, altura em que chegaram a ser determinadas como “patrióticas” pelo próprio PS, demonstrando a sua consistência no assunto.

Reprivatização adiada

No meio deste caos, e de uma onda de contratações de ‘boys’ que só agora estão a ser rescindidas por ordem da UE, os lucros de outrora foram substituídos por vastos prejuízos, que tornaram a reprivatização necessária. Esta foi prometida em 1991 por Cavaco Silva, mas foi travada pelas forças políticas que nem uma maioria absoluta conseguiu superar. Em 1994 foi injectado na empresa o equivalente a quase mil milhões de euros de hoje. Em 1995, o PS começou a tentar vender a TAP, mas apenas na condição de o novo proprietário manter os ‘tachos’ e as benesses chorudas. Nenhum investidor ou empresa foi louco o suficiente para aceitar tão mau negócio. 

Entre 2004 e 2009, Santana Lopes e José Sócrates tiveram intenções de dispersar a TAP em Bolsa; mas, sem reformas no seu interior, a TAP dava prejuízos tão avolumados (290 milhões em 2009) que nem sequer era possível fazer a operação segundo as regras bolsistas. Só em 2015 é que finalmente estivemos perto de deixar o saudosismo norte-coreano no passado, mas António Costa, dependente de dois partidos saudosistas do socialismo, foi veloz em travar a reprivatização.

E agora?

O Governo PS já injectou na TAP, a título de balão de oxigénio, 1.200 milhões de euros dos contribuintes, e prevê ter de lá meter ainda, até 2024, outros 3,75 mil milhões de euros. Para se salvar, a TAP teve já de obrigar os trabalhadores a assinarem um acordo que prevê profundas alterações laborais, nomeadamente cortes salariais da ordem dos 50% (nada mais apropriado, quando o ministro da tutela se considera um grande defensor da classe operária…). 

Mas isso está longe de ser suficiente: falta ainda que a Comissão Europeia aprove o plano de reestruturação da empresa e que esta se revele, como projecto estatizado que hoje é, realmente viável – isto num quadro de catástrofe global, com a TAP a ter de manter 90% da sua frota em terra. Incrivelmente, Costa não admite a sua culpa em todo este processo ‘kafkiano’, sabendo-se há décadas que as regras da UE proíbem estas injecções em empresas públicas, pelo menos sem contrapartidas como as actuais.

A esquerda embarca alegremente neste caminho suicida, considerando-o a única via de salvação que resta à empresa. Ao PCP, ao BE, ao ministro e ao chefe Costa pouco importa que os contribuintes portugueses, já a braços com uma crise económica severa, tenham de desembolsar mais uns milhares de milhões para satisfazer a sua deriva ideológica.

Pedro Nuno Santos declarou este Verão que os opositores de uma TAP nacionalizada “não sabem patavina”. Pelos vistos, os ingleses, franceses, alemães e muitos outros não sabem patavina. Ou talvez o senhor ministro, António Costa e a extrema-esquerda estejam apenas a colher a tempestade que semearam. Infelizmente, quem vai pagá-la, como sempre, somos nós. ■