Vão-se Catar!

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No alto da nacional parolice que tanto nos caracteriza, lá tratámos de enviar uma comitiva governamental ao Catar. Podíamos ter feito como tantos outros países, na sua maioria bem mais ricos que nós, e ter ficado por cá, sem representação política, até porque o evento assim não o justifica. Mas não! Procurando o destaque e as viagens à pala, enviámos quatro emissários pagos pelo erário público. Embora, tanto quanto se saiba, não partilhem quartos (há quem ressone e é sempre um inconveniente de monta), sempre dá para jogar uma suecada nos tempos mortos…

Questionado sobre o que diriam os portugueses da ida do Presidente ao Catar, o mesmo respondeu com outra pergunta: “O que diriam se eu não estivesse presente?”. Ora, não constando da Constituição que as idas de Marcelo à bola devam ser referendadas, este arremesso da questão é manobra de inteligência rara. Curiosamente, ninguém fez a mesma pergunta a Costa, o que é de lamentar, dada a pertinência da questão…

As declarações de Costa e Marcelo, de tão embaraçosas que foram, levaram a que Paulo Pocinho, embaixador português no Catar fosse chamado pelo governo Catari, na pessoa do vice-primeiro-ministro, para um valente puxão de orelhas, como aqueles que se dão aos miúdos após asneira da grossa, numa clara demonstração da nossa insignificância e irrelevância internacional. Se, de facto, o opróbrio tivesse sido grave, o governo Catari teria adoptado outras medidas, nomeadamente sanções diplomáticas. Optou pelo puxão de orelhas, um correctivo menor, na esperança que os putos não repitam as imberbes diatribes.

Costa e Marcelo acordaram, nas vésperas da viagem, para a realidade da maior parte dos países do Médio Oriente, onde os direitos humanos, as liberdades pessoais e a discriminação de género são frequentemente atacados por governos repressivos. Ora, o Catar foi escolhido pela FIFA para a realização deste mundial de futebol em 2010, ou seja, há 12 anos, seguindo um outro país, também ele amplamente reconhecido pelo respeito dos direitos humanos, a Rússia. Ambos os processos decisórios estiveram envoltos em grande polémica relativamente a luvas que os altos dirigentes daquela estrutura (FIFA) terão recebido para apoiar e condicionar tais escolhas.

Não consta das minhas pesquisas que, em 2010 e nos anos subsequentes, o Catar fosse uma democracia plena e as questões que agora se colocam derivem de uma recente mudança de regime. O processo de qualificação para o Mundial fez-se sob égide de ambos os governantes, Costa e Marcelo, e nenhum deles, sequer, sugeriu que Portugal se deveria recusar a jogar os jogos de qualificação em protesto com a escolha. Não! Tudo calado e a vibrar com as vitórias, regozijando-se com o apuramento. O assomo apenas se deu na véspera do embarque, numa cedência meramente aparente aos “soundbytes” de alguma comunicação social. Postulava a minha avó relativamente a Frei Tomás: “olha para o que diz, não para o que ele faz!”. O mesmo princípio praticam Costa e Marcelo: pela sua boca o fel da condenação; pelas suas acções, a viagem, em executiva, ao emirado absolutista e hereditário desde o século XIX.

Numa entrevista dada esta semana, o Embaixador do Irão em Portugal, Morteza Damanpak Jami, referiu que a definição de direitos humanos é de carácter subjectivo, explicando que haverá sempre que considerar tradições seculares, políticas, religiosas e de carácter geográfico. Aquilo que para os ocidentais parece uma explicação débil, falaciosa e com o propósito de legitimar determinadas práticas regimentais não aceites pelo “mundo moderno” é, porém, a mais pura das verdades: a percepção dos direitos humanos terá sempre uma componente subjectiva muito forte, ainda que possa existir um consenso alargado relativamente a determinadas matérias.

Para mim enquadram-se na categoria dos direitos humanos, a dignidade da pessoa humana, o direito à educação, a uma habitação condigna, o recurso aos serviços de saúde, uma comunicação social livre, entre tantos outros. Por cá, temos pessoas a viver com pouco mais de duzentos euros, depois de uma vida inteira de trabalho e de descontos; trabalhadores que ganham ordenados miseráveis e que vêm os seus direitos violados vezes sem conta (inclusive nos serviços tutelados pelo Estado); um número crescente de sem abrigos e de famílias a viver em condições altamente precárias e até desumanas; doentes que morrem pela ausência de cuidados de saúde, pela incompetência e incúria governativa e uma comunicação social a mando do Estado, por este subsidiada e na qual este intervém a seu bel-prazer (todos nos lembramos de episódios como a tentativa de Sócrates de controlar a TVI, do afastamento de Manuela Moura Guedes, da interferência na grelha de programação das investigações de Sandra Felgueiras e de tantos outros jornalistas incómodos silenciados pelo poder).

Podemos e devemos preocupar-nos com os emigrantes que trabalharam em condições desumanas e que pereceram na construção dos estádios cataris. O que não podemos nem devemos ignorar são aqueles que trabalham nas estufas alentejanas, de sol a sol, sem pausas para refeições ou necessidades fisiológicas, acotovelando-se às dezenas em contentores que atingem temperaturas de mais de 50 graus no Verão, desconhecidos do sistema, sem qualquer tipo de protecção nos seus direitos básicos. Quando revelada esta situação, a solução com que Costa os presenteia é com uma transferência forçada, com escolta policial, na calada da noite para que fiquem longe dos olhares das câmaras da televisão.

Também por cá há Gisbertas, Ilhores e tantos outros a quem fechamos os olhos. Também por cá se morre, se é perseguido e discriminado. E também por cá há bola para entreter os tolos.

Os nossos direitos humanos são melhores que os vossos? Vão-se, mas é, catar!