Vinho aproxima Costa de Salazar (salvo seja!)

O primeiro-ministro mostrou este fim-de-semana que, afinal, o “paraíso socialista” dos nossos dias não dispensa alguns dos mitos do Estado Novo…

0
629

Foi em Bragança, no último fim-de-semana. Entusiasmado com os calores da campanha eleitoral autárquica, em que tem vindo a participar anunciando milhões à esquerda e à direita, o líder socialista apontou a produção de vinho como meio de inverter o declínio do Interior – possivelmente sem se lembrar de que esse foi um dos ‘slogans’ mais célebres do Estado Novo, lançado há 83 anos pelo Governo de Oliveira Salazar.

“Beber vinho é dar o pão a 1 milhão de portugueses” – lia-se num dos três cartazes que em 1938 foram afixados por todo o país e que perduraram na memória dos portugueses. “Uvas fonte de saúde e de alegria” – dizia outro. O ‘slogan’, abundantemente glosado na Imprensa, na Música e na Literatura, foi tema do teatro de revista e usado, durante décadas, como incentivo à produção vitivinícola. 

António Costa, que na altura ainda não era nascido, parece ter aprendido a lição nos livros de História. E bem a aplica hoje. No último Sábado, discursando em Bragança num comício de apoio ao candidato autárquico socialista, o chefe do PS disse cheio de entusiasmo: “Quando nós formos capazes de valorizar aquilo que a nossa terra produz, não tenho as menores dúvidas que essa terra vai produzir bens e serviços de maior valor, que vai permitir criar mais empregos, mais bem remunerados, e aí sim nós conseguiremos fixar os filhos da terra e atrair para esta terra os filhos das outras terras, que aqui vão encontrar o seu futuro e maior prosperidade”. Para Costa, no entanto, esta estratégia só resultará se “o poder central e o poder local remarem para o mesmo lado”.

À parte o desnível estilístico do Português, não se detecta grande diferença entre o apelo do Estado Novo de Salazar e o deste estado de coisas de Costa. Num pequeno pormenor, porém, se distanciam: enquanto o então Presidente do Conselho dava o exemplo cultivando as suas próprias vinhas na aldeia do Vimieiro, Santa Comba-Dão, e levando aos lábios, a cada refeição, um modesto copinho do tinto da sua produção, António Costa limita-se a enaltecer por palavras a pinga que hoje se faz em Portugal: “É preciso ter muito azar para que não nos saia um bom copo de vinho”, disse ele há dias em Bragança.

Um outro Costa

Foi em Junho de 1938 que o Ministério da Agricultura, então chefiado pelo jurista (e também agricultor) Rafael Duque, abriu concurso para a execução de três cartazes de propaganda sobre o tema. Objectivo: estimular junto das populações rurais a produção de uva vínica e junto dos agregados urbanos de todo o país o consumo de uvas e de vinho. 

A selecção dos cartazes foi da responsabilidade da recém-criada Junta Nacional do Vinho (hoje Instituto da Vinha e do Vinho). O ‘site’ especializado “Garfadas Online” recorda que nas propostas artísticas “deviam ser incluídas mensagens que transmitissem a ideia da uva como alimento saudável, considerar o vinho como uma bebida higiénica alimentar e valorizar o papel social do vinho”.

O vencedor do concurso foi o artista Mário Costa, autor dos três cartazes (um a preto e dois a cores) que então foram afixados de Norte a Sul. Num deles lia-se “Uvas fonte de saúde e de alegria” numa gravura de estética estadonovista. Noutro, a mensagem era sintética, sobre a imagem de um copo com vinho e três espigas: “Beber vinho é dar o pão a 1 milhão de portugueses”. O último, mais elaborado, mostra um adulto servindo-se de um jarro de vinho e uma criança comendo uvas. A mensagem: “Comam uvas/bebam vinho/Quem beber vinho contribui para o pão de mais de um milhão de portugueses”. Hoje, com a terciarização da vida económica, todo o sector agrícola nacional emprega pouco mais de meio milhão de portugueses.

Mário Costa (1902-1975), o autor dos célebres cartazes de propaganda ao vinho, foi um respeitado pintor, ilustrador e vitralista. Fez decorações para a Exposição do Mundo Português (1940), ganhou o prémio Roque Gameiro do SNI (1945), distinguiu-se na reconstrução dos vitrais dos Jerónimos, das Sés de Lisboa e do Porto e da Igreja da Conceição (Porto) e foi co-autor dos vitrais das Igrejas de Fátima e do Santo Condestável, em Lisboa, e da Igreja da Lapa, no Porto. Há um vitral seu, de estética moderna, na pastelaria Mexicana, na capital. Trabalhou nos décors de vários filmes portugueses (‘O Fado’, ‘O Homem do Ribatejo’, ‘Camões’, ‘O Costa do Castelo’ e ‘A Vizinha do Lado’, entre outros) e foi chefe do Atelier de Publicidade da Mobil em Portugal. ■