A guerra na Europa

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Raramente nas guerras os objectivos a atingir e os princípios a defender são tão claros como neste caso da Ucrânia. De facto, quem pode duvidar que se trata de uma invasão de um país pacífico e democrático às mãos de um poderoso ditador e assassino, cuja simples existência é hoje odiada em todo o mundo, como o maior impedimento da paz a curto prazo. Ditador cujo único verdadeiro poder foi herdado sob a forma de um poderoso arsenal nuclear.

A invasão da Ucrânia pelas tropas russas divide o planeta, de um lado os regimes autoritários e as ditaduras e, do lado oposto, as democracias. Nunca esta divisão foi tão evidente como é hoje, como evidente é o perigo de uma escalada na guerra provocada por um louco rodeado de loucos. A Rússia de Putin é hoje um país mal governado, pobre, com uma economia fraca e com um povo massacrado pela repressão e pela mentira. Sem o arsenal nuclear e apenas com os meios militares de uma guerra convencional, as democracias ganhavam a guerra numa semana. Seja porque a generalidade das democracias possuem economias poderosas, porque detêm a inovação tecnológica, e, principalmente, porque possuem homens e mulheres livres que pensam pela sua cabeça e onde cada ser humano está disponível para, de forma consciente, lutar por aquilo em que acredita, seja pela sua liberdade, seja pelo modo de vida que pretende deixar aos seus filhos.

A mentira está presente em todas as guerras e as justificações são quase sempre incoerentes ou mentirosas, fazem parte do arsenal usado na defesa da violência e da morte. Todavia, nunca a mentira foi tão clara, tão óbvia e tão injustificada como neste caso da Ucrânia. Ao ponto de muito poucos dos que têm acesso a meios de informação livres, diversificados e disponíveis de hora a hora, como os que existem nas democracias, podem racionalmente justificar as acções demenciais do Kremlin. Esta é, porventura, a maior dificuldade para a obtenção da paz, porque a mentira russa é de tal forma absurda e contrária às regras do normal entendimento entre as pessoas, que a barreira criada se torna insuperável para qualquer negociação. Aliás, qualquer acordo é violado logo de seguida pela hierarquia russa.

Apesar disso, e infelizmente, sabemos que do lado democrático existem minorias políticas que não primam pela racionalidade ou pelo seu amor à democracia, à verdade e à paz. É o caso emblemático do PCP, como de outros partidos menos transparentes nas suas verdadeiras intenções, como sabemos que essas convicções extremistas se voltam quase sempre contra os seus crentes, porque as maiorias livres são maioritariamente informadas e racionais, insusceptíveis, portanto, de aceitarem mentiras tão óbvias que a realidade diária desmente. Razão porque nesta conjuntura e nos países onde existe a liberdade de informação, se formaram amplas maiorias de apoio ao povo e ao governo da Ucrânia.

É pena que a maioria formada na Assembleia Geral da ONU, superior a cento e quarenta países, não esteja a ser aproveitada de forma coerente para abrir negociações que possam conduzir à paz. Nesta conjuntura não se pode hesitar em usar a maioria existente na Assembleia Geral para condicionar de forma prática o Conselho de Segurança. A legitimidade das maiorias não pode ser colocada em causa pela não igual legitimidade das regras estabelecidas pelos fundadores da ONU. Não pode nem deve existir uma legitimidade contractual, não moral, que seja eterna.

Na batalha que estamos a travar entre os países democráticos de todo o mundo e os governos das ditaduras e afins, que ainda hoje existem, devemos compreender o povo russo, como todos os outros povos que não podem expressar livremente as suas convicções. Neste contexto, assume grande importância o povo chinês, seja pela sua dimensão, seja pela sua importância nos planos económico, social e político, seja porque, pelo menos em parte, também vive em luta contra a opressão do marxismo, apesar de, neste caso da China, existir um notável progresso económico.

O apoio político, humanitário e, principalmente, militar, que está a ser fornecido pela generalidade dos países democráticos deve continuar e, se possível, aumentar. Sabemos que esse apoio corre riscos, seja o do cansaço dos povos como resultado da continuação da guerra por muito mais tempo, seja o do empobrecimento económico, seja, finalmente, o risco de uma guerra nuclear. Todavia a resposta é clara, as democracias nunca poderão optar pela cedência contra a paz e a democracia.

Portugal é formalmente um país democrático, mas onde se passam coisas estranhas impróprias de uma democracia. Desde logo o ilusionismo político criador de uma certa realidade paralela, sustentada pelo excessivo poder governativo em vista da sua fraca qualidade política e organizativa. Quer no plano económico, quer no plano social, quer no plano da organização do Estado, vivemos tempos ora de estagnação, ora de retrocesso. O que está a acontecer com os mais de trinta mil cidadãos ucranianos chegados a Portugal, demonstra que a solidariedade do povo português na recepção a esses migrantes não é acompanhada com a organização do Estado em os receber de forma condigna e em organizar a sua estadia. Os acontecimentos recentes em Setúbal, mas também na Guarda e em Portimão, e a percepção de que o mesmo, ou semelhante, se passa noutros locais, mostra a dimensão da habitual fuga às responsabilidades do Governo, ao empurrar as culpas de instituição para instituição sobre o que corre mal, em vez da acção atempada de correcção. Temos um Governo que funciona em função da abertura dos telejornais e não para resolver problemas ou organizar o Estado em moldes modernos e funcionais que, aparentemente, são desconhecidos dos ministérios.

Neste caso, como em muitos outros, a ideia mais vulgar é passar as culpas para baixo, neste caso para autarquia de Setúbal, no que é um caso evidente de não funcionamento dos serviços de segurança da República. Há anos que a embaixada russa sustenta cidadãos russos a espiar pessoas e instituições em território nacional, sem que se saiba e, pior do que isso, sem que o Governo faça algo de útil. Aparentemente, por iniciativa da União Europeia, expulsámos alguns cidadãos russos por razões meramente burocráticas, mas deixámos cá os que comprovadamente já estavam a ser investigados como espiões. Nada disto é novo, o SEF tem sido fechado e aberto a cada mês que passa e já ninguém acredita que possa vir a funcionar normalmente. Quanto aos serviços de segurança da República sabemos que no passado recente estavam ao serviço de entidades privadas, serviços que agora aparentam não existirem. Esta é a realidade portuguesa, seja na economia, seja na Segurança Social, seja nas Forças Armadas, seja no Serviço Nacional de Saúde, há sempre uma diferença enorme entre o dinheiro que se gasta no seu funcionamento e os resultados obtidos. 

Estas são as grandes diferenças entre a boa e má governação, entre competência e profissionalismo de um lado e a endogamia política do outro. Por isso vamos assistir a que milhares de ucranianos agora chegados a Portugal cheguem a esta conclusão e procurem na Europa outros locais onde a economia e os serviços públicos funcionem. Já não é a primeira vez que isso acontece, já tivemos no passado connosco mais de trinta mil ucranianos que foram, pouco a pouco, desaparecendo. Nada que os portugueses não tentem também fazer. ■