200 anos dos lazaristas no Brasil

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A Congregação Lazarista acaba de completar 200 anos de Brasil, tendo sob sua responsabilidade o complexo do Caraça, em Minas Gerais, que, por sua vez, completa 250 anos, sendo por muitos anos responsáveis pela direção do seminário e do educandário franciscanos portugueses. Lamentavelmente, os vicentinos no Brasil formam ainda com a Teologia da Libertação, que João Paulo II tentou sepultar, mas que, infelizmente, sobrevive nas ordens independentes. O actual dirigente, Pe. Eli Chaves, sediado no Rio de Janeiro, assina, em nome da ordem, artigos de proselitismo político aberto, sem recorrer aos habituais subterfúgios comuns ao clero esquerdista em todo o mundo. Ele vai directo ao assunto e tece críticas fortes ao presidente e ao governo brasileiro. Embora o presidente seja católico, tem fortes vínculos com os evangélicos, que crescem entre os brasileiros justamente pelo comportamento esquerdista de parte do clero, hoje sem ter quem os discipline, como ocorria até os dois últimos papados. Sem a menor cerimónia, o responsável pela ordem critica o presidente da República e tira ilações sobre as quais existem controvérsias na população. Pe. Eli Chaves parece ter compromissos ideológicos e políticos mais fortes do que com a Igreja, haja visto que desrespeita o Código Canónico e não usa o sinal visível recomendado aos religiosos. 

O complexo do Caraça é um centro de peregrinação, estudos e turismo ecológico – ocupa uma reserva natural de 11 mil hectares. Ao longo de sua história, foi seminário e colégio de referência em Minas Gerais. Recebeu professores clérigos de diferentes nacionalidades e seu marco inicial foi a Igreja de Nossa Senhora Mãe dos Homens, que é património nacional. Ali, formaram-se mineiros de referência ao longo da história, inclusive dois presidentes da República, Afonso Penna e Arthur Bernardes, e recebeu sempre a visita dos mais altos mandatários do Estado. O Caraça dista 120 km da capital, Belo Horizonte, e só teve seu acesso asfaltado há meio século, pelo governador Rondon Pacheco, quando dos 200 anos do Santuário e 150 da presença vicentina. Em 1770, data da construção primeira do santuário, o acesso era penoso, pelas condições da região. Está na Serra do Caraça, que é parte da Serra do Espinhaço.

Um dos mais ilustres visitantes estrangeiros ao Brasil no século XIX, Auguste de Saint-Hilaire, dedicou cinco páginas de seu grandioso livro “Viagens pelo Interior do Brasil”. Esteve com o próprio fundador, Irmão Lourenço, em 1816. Ficou tão encantado com a diversidade da flora local que levou consigo mais de 70 espécies. Outro visitante ilustre, em 1818, foi o alemão Von Martius, que, encantado com o conjunto, a mata e o pomar rico em frutas de origem europeia em local tão distante do Rio de Janeiro, registrou, curiosamente, que a manteiga que ali comeu era melhor do que a “dos Alpes suíços”. O Imperador Pedro II e a Imperatriz Teresa Cristina visitaram o Caraça em 1881, considerando a igreja “uma jóia do barroco”.

Mas há um grande mistério que cerca a construção, naquele local ermo, de projecto tão ousado de um santuário com trabalhos admiráveis do mestre Manuel da Costa Athaide, o maior de Minas Gerais, com muitos trabalhos no Rio, que tinha nome, origem e trabalho conhecidos e reconhecidos desde sempre, e não o tal de Aleijadinho, cuja existência é cercada de dúvidas. Como surgiu no Brasil, em Minas? Sabe-se que o Irmão Lourenço trouxe de Portugal uma boa soma para iniciar a construção, tendo-se incorporado à Ordem Terceira, Franciscana, em Diamantina anos antes. As especulações são muitas, sendo a mais provável de se tratar de membro da família Távora, banida de Portugal por D. José, ou do Duque do Aveiro, ligado aos Távora. O Irmão Lourenço logo se fez amigo do bispo de Mariana, o segundo bispado do Brasil, do próprio governador da Província de Minas, recebendo no complexo visitantes do Brasil e de Portugal, inclusive os missionários que foram de Lisboa e administraram o local por 30 anos. Mas o que o teria levado ao Brasil e a escolher aquele local para instalar uma Igreja e depois um seminário, não se sabe. Irmão Lourenço morreu com mais de cem anos no Caraça.

Esta é para anotar e visitar. ■