A outra face de Mussolini

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O fascismo morreu com Benito Mussolini, assim como o salazarismo e o franquismo acabaram com a morte de seus fundadores. Esta história de fascismo não tem fundamento histórico nem base ideológica. O que uniu estes personagens e os seus governos foi a oposição ao comunismo, na época muito ameaçador para as sociedades democráticas e capitalistas, princípios gerais de visão do Estado e do mundo.

Os regimes de direita, conservadores, tiveram em comum a prioridade na segurança e na ordem pública, no ambiente favorável ao trabalho e ao investimento, restringindo as greves de inspiração política. Todos os regimes tiveram um forte vínculo com a Igreja Católica. E foi Mussolini que, em acordo com a Igreja, criou o Estado do Vaticano, num memorável acto assinado com o Cardeal de Gasparri, em 1929. 

Mussolini, que foi determinante na vitória de Franco contra os comunistas na Guerra Civil de Espanha, nunca esteve com o generalíssimo e muito menos com Salazar, que o apreciava e chegou a ter uma foto do Duce autografada em sua mesa de trabalho. Tivessem as facilidades de comunicação do mundo moderno, talvez o italiano não tivesse entrado na guerra como seus companheiros da Península Ibérica.

O regime que vigorou 24 anos na Itália, sendo que 16 antes da guerra ficou conhecido pelo combate ao comunismo e às violências ocorridas nos primeiros anos da implantação da ditadura, incluindo um crime de morte cometido contra um deputado da oposição. E, claro, a fatal aliança com a Alemanha nazi.

Agora a Itália começa a registar a face do dirigente italiano que foi, na verdade, a base de seu apoio interno e as simpatias ao redor do mundo nos anos 1930, que foram as grandes realizações.

Hitler, cujas estradas são faladas, chegou ao poder dez anos depois de Mussolini. Este já havia programado as grandes obras, como a estrada Roma-Florença, a primeira de via dupla na Europa, a Estação Ferroviária de Milão, até hoje admirada, e, sobretudo, as reformas de Roma, limpando a cidade de ruas, ruelas e prédios insalubres e decadentes. Removeu mais de 30 mil moradores de cortiços, casas ocupadas por múltiplas famílias, devolvendo aos seus proprietários umas e demolindo outras, construindo os primeiros bairros populares da Europa.

A Roma limpa deve-se à vontade política e a determinação do Duce, responsável pela reforma da Via da Conciliação, entre o Tigre e a Praça de São Pedro, onde antes estavam três ruelas insalubres e escuras, sufocando a grande Catedral. Também liberou pontos históricos como o Pantheon, as praças Navona e Veneza, igualmente cercadas de construções menores que as sufocavam, e o Foro Italico – Mussolini originalmente –, nos arredores da cidade, até hoje referência para o desporto. Deve-se ainda ao seu discernimento o Cinecittà, que forjou o apreciado cinema italiano, relevante até os anos 1980.

Curioso é que, durante seus anos de ditador, Mussolini entregou a administração de Roma a membros da nobreza, excepto nos dois anos de Botai, um raro fascista de bom gosto. Com isso obteve das famílias que tiveram de volta os seus imóveis, palácios muitos deles, a reconstrução para habitar o centro histórico da capital italiana. Claro que enfrentando a oposição de esquerda, que queria ver Roma com habitações populares no seu centro de referência para o turismo e a cultura. Passados quase cem anos a histórica repete-se em muitas capitais. A esquerda quer favelizar as cidades, por demagogia e ódio à cultura e à tradição.

Este exame, apagadas as paixões da época, faz crer que a vantagem de Salazar e de Franco é que implantaram as suas ditaduras com respaldo na elite cultural e moral de seus países, nos militares e empresários intelectuais, enquanto o italiano chegou ao poder e teve de permanecer ligado a um agrupamento do mais baixo nível, que teve dificuldades em isolar. Os livros M, do italiano Antonio Scurati, com dois primeiros volumes já nas livrarias, evidenciam bem isso.

O fascismo hoje só existe na cabeça dos comunistas e afins. O que existem são opções pelo capitalismo liberal, que emprega e gera riqueza, segurança e um mínimo de controle sobre a imigração, que ameaça o futuro de alguns países, como a França e a Espanha. ■